DO AMIGO SINTO
UMA PRESENÇA CONSTANTE
MARCA DO INFINITO
Há quem prefira o doce à salgado,
O café a chá.
Há quem prefira o primeiro ao terceiro,
O azul a preto.
Há quem queira o óbvio ao inevidente,
O sonho à realidade.
Há ainda quem deseje o padrão ao
desalinho,
O ponto fixo ao pêndulo.
O café, o preto, o terceiro, o
inevidente, o sonho e o pêndulo.
Eu....prefiro o vento!
A moça na janela
Debruçada de sentinela
Esperando o tal moço
Que piscava para ela
O moço da piscadela
Que antes sorria para ela
Desfazendo o conchego
Transitava com outro apego
A donzela do seu jeito
Rompendo o parapeito
Pensava com certo alento
No seu destino cinzento
Triste moça da janela
O olhar de pura mazela
Mira agora recente aboço
Enlace de um novo esboço
Naquela manhã, nem sei dizer o porquê,
resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia
aproveitar a saída aleatória e passar numa feira, para trazer os legumes,
enfim, desfrutar das comodidades daquela minha vontade repentina de caminhar
com as fuças ao vento. Digo, pois tenho a maldita da esteira de caminhar em
casa, que ando dia sim dia não, à revelia, como pedido médico. Mas, naquela manhã,
como disse, não sei por causa de qual impulso, talvez o do destino mesmo, fui a
um parque.
Depois da segunda volta na estradinha de
corrida, já tinha observado os vários tipos que ali corriam, caminhavam, várias
caras de pessoas, elas todas variadas, velhas, novas, magras, gordas, cansadas,
alegres ou tristes, também corriam aqueles, os com qualquer feição que não
cabiam em catálogo. Iam na mesma passada, num círculo sem fim, completando seus
exercícios matinais. Eu... ia junto. Nem sei mais se na terceira volta, vi um
senhor meio que debruçado em uma das árvores. A mão encostada na árvore, meio
curvado, o olhar para baixo, eu encostei levemente nas suas costas e perguntei
se passava mal. Ele me olhou, agradeceu e disse que não, que estava tudo bem,
só estava cansado, e retruquei dizendo se o senhor não queria se sentar naquele
banco, logo depois do bebedouro e beber um pouco de água, e fomos, e percebi
que já estava com minhas mãos no braço fino do velho, na altura do seu
cotovelo, conduzindo-o até o local.
Cabe aqui uma rápida descrição do
senhor, que não tenho intenção de lhe dar um nome, pois não será preciso, mas
sua figura, muito magra, com as várias pelancas da pele enrugadas ao extremo, o
cabelo muito grisalho, quase sem fio preto, as calças de moletom extremamente
largas, o arrastar dos pés, e aquele cheiro de velhice. Depois de sentado, eu
continuei em pé, e insistia na água, ao que ele me respondia que não tinha
sede. Perguntei se havia alguém com ele e obtive um não como resposta. Depois
de alguns minutos pensei que a minha boa ação do dia já estava feita, e tentei emendar
um já vou indo, que foi interrompido pela frase: “Preciso te contar meu segredo,
preciso dizer para alguém, por favor”.
O medo tomou conta de mim
instantaneamente, mas a curiosidade talvez tenha sido senhora e quis ouvir o
relato do desconhecido. Eu não disse nada, apenas sentei ao seu lado, quieto,
resoluto e apreensivo. Ouvi toda a história sem um pio sequer. A cada frase eu
ia ficando cada vez mais estranhamente desesperado, confuso e tristemente
melancólico. O relato era seco, pausado, didaticamente contado. Tinha nascido
os dois filhos, a situação era complicada, criar os dois, vendeu um filho para
adoção, o dinheiro rendeu muitos anos de vida razoável, vendeu, sem a mulher
saber, o outro ficou, a mulher que tinha passado mal no parto, achou que o
segundo tinha morrido, pois foi isso que ele lhe contou, trazendo apenas o
primeiro no colo, que jogou nos braços da mulher, que acamada, apertou e que
nem teve tempo de chorar pela morte do outro que nem viu as caras, nem lhe
abraçou o corpo, só o carregou por alguns meses, e seguiram a vida assim, cada
qual com sua parte da história, um filho vivo ali do lados deles, e o outro
sabe-se lá onde, pois o paradeiro nunca foi, e nem podia, ser descoberto.
E aquele era o segredo que estava lhe
matando dia a dia, que lhe consumia por mais de setenta anos e que era preciso
ser dito para alguém, porque quando se divide o trauma, o delito, a
imprudência, o desatino, a morte parece mais branda de perdão. E eu ali,
estatelado de um sentimento absurdamente desconhecido para mim, eu que tinha
resolvido apenas caminhar no parque, peguei na mão do velho, disse que ele
estava perdoado e segui sem olhar para trás, segui sem olhar para trás, sem
olhar para trás.
Volto a escrever.
Depois do período catártico, que não
convém explicar ou dizer, escrevo. Faço por pedido do amigo que diz: “ se
obrigue a escrever…nem que seja um haicai! ” Na dúvida do que dizer em três
linhas apenas, eu teria que condensar em verso, (duas redondilhas menores e uma
maior, tudo que ficou nesse vão de tempo, nesse tempo que a poesia me fugiu e a
ideia vagou sem uma letra escrita em página qualquer), registrar nossos momentos
efêmeros em modestas três linhas; assim, optei por rabiscar essa crônica, que já
adianto ao leitor, torta, sem vigor, indo de mal a pior, porque essa amadora
escritora estava em desalinho, mas com a intenção de gesto, sim, do maior gesto
possível.
Preâmbulo feito.
Volto a escrever por causa das pessoas,
por causa de mim, de nós, pelo tempo, por todos que sabem que dizer é preciso.
Dizer algo é necessário. Não o que todo mundo já sabe, mas é muito mais
importante dizer aquilo que não se sabe. O encontro de gentes é algo mágico.
Encontrar as pessoas e saber que se pode falar, aprender com elas, ouvir delas
o essencial é aparentemente tão comum, tão banal que muita gente não liga,
ninguém mais quer fazer ou dizer.
Escrevo porque alguém deve dizer o
óbvio, o incontestável poder de dizer e ouvir, de ter amigos que se fazem
presentes no vácuo da vida cotidiana; essa crônica é para eles, sim, eles sabem
que é para esses três, e não poderia ser apenas um verso para cada um, teria
que ser um monte de versos para eles. Essas palavras são para vocês. E eu sei
que vocês sabem que escrevo para vocês.
Voltei a escrever porque eu precisava
dar para eles a certeza de que nosso encontro foi muito essencial, e sempre o
é, sendo curto, sendo longo, não importa, falamos e somos ouvidos, um na medida
do outro, um no gancho do outro porque sabemos fazer o básico bem feito,
sabemos que a conversa, o querer bem, o desarmar-se na confiança é o que nos
une nesse caótico abismo de solidões.
Escrevi porque era preciso dizer para
vocês o quanto tudo isso é muito importante. E que vocês podem mover o mundo, a
pena da escritora, a alegria do encontro e a arte de se doar, simplesmente
porque viver é isso. Recebam o texto com o desejo de que sempre nos encontremos,
para fazer o imprescindível.
HAICAI DO ENCONTRO
Desse encontro
Voltado ao imensurável
O tempo dirá
As coisas não residem no tempo
Se costuram a ele, em pedaços de trapos de memórias
Que antanho, vão se aparecendo
Descaradamente em nossos olhos saudosos
Se o tempo, quando cronológico, engana
Para uns em demora, para outros em segundos
Ele soberano, esquevo, passa e passa e passa
As coisas não se amoldam no tempo
Se desvelam a ele, entretempos, em pequenos
contratempos
Que diuturno, vão se acumulando
Clarividentemente em nossos olhos cansados
Se o tempo, quando memória, perturba
Para uns em tristeza, para outros em alísios
Ele relativo, anacrônico, atrasa e atrasa e atrasa
Todas as coisas são o próprio tempo
Somos o instante, época, era e o momento
Somos as grandezas dos eventos nossos inacabados
Medidas complexas, entremeios de antes e depois
Que intuitivo, constrói histórias atemporais, guardadas
Melancolicamente em nossos corações envelhecidos
Sem tempo para escrever
e sem ideias do que dizer
sem assunto que pensar
E sem ...
a poesia segue inacabada...
Mote: Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos.
(Saramago em As pequenas memórias)
Qual alma não vacila?
Oscila...
Qual alma caminha?
Minha alma hesitante
manca
alma capenga
caminha, caminha, caminha
Solitária!
Por dois amores infinitos passa uma única reta paralela.
Por um ponto de vista, passa uma única reta paralela,
chamada de opinião.
Faz tempo que não tenho tido tempo para escrever. Li hoje uma frase de um amigo em seu Blog: “Sempre que penso em parar de escrever, depois de alguns dias volto atrás e venho aqui burilar alguma coisa do que vai em minh'alma. " (*)
Li a frase e pensei que tinha que escrever sobre alguma coisa, pois, a necessidade de se dizer algumas coisas, de burilar algo, assim como o amigo disse, que tenho dentro de mim, estava acumulada por muitos meses. Não tenho tido tempo. Saudade.
Escrever hoje é muito
necessário! Não para que alguém leia, mas porque preciso que essas coisas saiam
de mim. Eu penso demais em tudo. Tudo em mim sai exagerado, eu rio demais,
choro demais, observo muito e acredito que todas essas emoções uma
hora tem que transbordar e se firmar em algo escrito. Dito isso, ou dito quase isto, não
sei se vou conseguir terminar esta crônica como uma crônica. Numa época em que as emoções
se confundem todo o tempo, época que estamos muito cansados de tudo, que ninguém sabe mais se é poema ou crônica, se estamos aqui ou acolá, que não sabemos quem somos... quero poder escrever de tudo um pouco, bem livre, assim, segue
o final...
Poema sem vergonha
Um poema sem vergonha
Nasce...
Se fosse assim, sem
burilo
Seria sem-vergonha
Suponho...
A palavra com retoque
Surge...
Se fosse assim, a
esmo
Seria improviso...
Um verso sem sentido
Confunde...
Se fosse assim,
planejado
Seria estudo...
Um poema sem vergonha
Nasce...
Se é assim ...
sentido
Impressentido!
O POÇO DE VISITA SE ENTUPIU
DE TANTA VERGONHA FALHOU
DE TAMANHO DESCASO RUIU
BUEIRO, SEU NOME É DINHEIRO!
Mote: A história acabou, não haverá nada mais que contar. (Saramago, em Caim)
No bar, o homem embriagado, narra a história da sua vida para o garçom, que muito pouco ou quase nada interessado, escuta apenas, na intenção de vender mais cervejas.
Imobilizada
Ainda trabalho
Muda a regra
Ainda trabalho
Paga pedágio
Ainda trabalho
Deixo o vislumbre
Ainda trabalho
É o fim
Sem atalho
Que nada...
Mais uns anos de tortura
Sem atalho
É o fim
Ainda trabalho
Deixo o vislumbre
Ainda trabalho
Paga pedágio
Ainda trabalho
Muda a regra
Ainda trabalho
Imobilizada
É possível
parcelar as mágoas em suaves prestações? De preferência sem juros, porque
ninguém merece juros disto. Já tive que inutilizar minhas ações, então, por que
tenho que ainda pagar por isso tudo? Por favor, parcele. Parcele essa dívida
comigo mesmo, para que eu possa entender tamanho boicote social, para que eu
possa compreender o motivo pelo qual as pessoas te excluem, se excluem, me
excluem. Fui um mau garoto? Somos boas garotas? A quem os olhos viram ações errôneas?
Minhas opiniões problemáticas te tiraram
da zona de conforto, ou me colocaram na cova? Meu comportamento foi inadequado
ou você se viu no espelho?
É possível
parcelar as mágoas em pequenas prestações? Por favor, parcele minha angústia em
prestações para vida toda, para que eu tenha tempo de pagar essa dívida moral
comigo mesmo; para que eu possa acertar esse déficit a longo prazo e perdoar a
minha inadimplência com esse ser humano que é desprezível, que faz julgar e
sofrer tão facilmente. Por acaso todo esse descaso se deve ao fato de que não é
possível aceitar o que outro diz? Tem coisa que é inafiançável: a fome é
inafiançável, a morte, a pobreza. Não cabe aceitação. Você por acaso já sentiu
alguma coisa dessas? Se sim, então, parcele, por gentileza.
Não.
É possível
providenciar o cancelamento das minhas mágoas? É que o comprador se enganou na
compra, o produto veio com atraso e foi entregue em desacordo com o anunciado. Cancele, por
gentileza!
DO AMIGO SINTO UMA PRESENÇA CONSTANTE MARCA DO INFINITO