Das inúmeras vezes em que a moça tentou se desculpar
pelo ocorrido e esclarecer os fatos, palavra não saiu de sua boca. Calava-se ao
olhar para o rapaz, que, também ao vê-la, saia de perto, constrangido. O motivo,
não importa, na vida, o acontecimento passado, ou vira mágoa ou lembrança.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
INTERVALO
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
AXIOMAS DO AMOR OU PRINCÍPIOS DA CONTRADIÇÃO
1) Uma proposição pode
ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo dependendo do grau de amor contido.
2) O conjunto de regras básicas que define
formalmente o amor, não existe.
3) No amor,
há julgamento sem acusação, crime sem provas e culpa sem direito à
defesa.
4) Sinto, logo amo!
sábado, 29 de agosto de 2026
DAQUILO QUE É
Um sorriso que aponta
Uma voz ao sussurro
O gesto de carinho
O prato preferido
O que encanta aos olhos, a palavra bem
dita (sem hífen mesmo), o elogio, a prosódia
O ato pretendido
Uma singela mensagem
Uma conversa acalentadora
O bolo e o doce bem-casados
O que enche o coração, a abundância de esperança,
o enternecimento, o amor
Uma música que toca
Um livro lido
O matar da sede
A arte feita às mãos
O que me invade de humanidade, a fé na
natureza humana, a felicidade.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
TRÂNSITO EM JULGADO OU CAUSA GANHA MESMO
− Eu quero nesse lugar aqui!
A mulher insistia com o pedreiro que queria, que a pia da sua cozinha, ficasse naquela altura, ela dizia que era muita alta: "olha minha altura!" e que não queria a pia baixinha. Ela colocava o dedo na parede e mostrava, impaciente; diante da resposta negativa do homem (que não passava do metro e sessenta, talvez até mais baixo), que também relutante, explicava os motivos pelos quais a pia não poderia ser colocada naquela altura, o certo seriam os exatos um metro e sessenta centímetros, “é o padrão” dizia ele, repetidas vezes, “é o padrão”; e tem também a questão do cano de água, ele argumentava, com a réplica dela, instantaneamente afirmando que o cano não ia sair do lugar que era só colocar a pia para cima, que a altura sugerida era para ele e não para ela. Dessa maneira, seguiram, travando uma batalha sem cautelares, e a mulher vendo que a tarefa de convencer o senhor seria quase impossível, apelou:
− É o senhor que vai lavar a louça?
Causa ganha!
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
MONTE DE NADAS
Não fazer nada
Nem vento pensar
Sem invento imaginar
Nada sem pensar
Vento nem imaginar
Não invento fazer
Pensar, imaginar, fazer
Vento nada invento
Nem sem não...
Não nem sem...
Sem não nem...nada!
terça-feira, 4 de agosto de 2026
O FLAGRANTE
Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha suave nos seios, os dois bebês, cada qual em seu carrinho, um defronte ao outro, se olhavam trocando gracinhas, piscadelas, risos, meneios de cabeça para lá e para cá, mãozinhas estiradas para dar adeus, que eram devolvidas com vários beijinhos sutis.
Só você leitor e eu que vimos e sabemos, as mães, perderam o instante!
sábado, 1 de agosto de 2026
UM MODO QUALQUER
Estou em modo turbo! Na verdade, todos
estamos! Ouvi e vi um vídeo hoje, de um rapaz que nem sei nome, fazendo uma
receita de pavê enquanto falava sobre a crise mundial, sobre a maldade humana,
sobre o fato dele ser ansioso ao extremo, sobre o problema da religião que mais
mata que une, a terceira guerra chegando e uma série de outras coisas, que não
me lembro mais em detalhe, porque eu ri muito com o vídeo, achei o máximo, era hilário e pesado.
Adoro esses vídeos que “bugam” meu cérebro e misturam a tragédia com a comédia,
porque sei também, que elas andam ali, grudadinhas, e sei também que a minha
alta ansiedade, acaba comigo há tanto tempo, e faz de mim alguém muito pior, e
nas minhas reflexões, percebi que essa minha tal extrema ansiedade, também, veja só que
ironia, também faz de mim alguém muito melhor e poderosa em alguns setores da minha vida. Modo turbo! Acelera essa
mensagem aí! Estamos todos em modo turbo, querendo estar em modo avião. Sim,
queremos estar desconectados e inertes, só que já não mais podemos estar assim,
o tempo nos engole a pulso e nos obriga a estarmos ali, aqui, acolá conectadíssimos em qualquer coisa. Modo
turbo, em apenas um parágrafo mesmo, porque o tempo urge de rapidez e temos
medo do fim.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
terça-feira, 28 de julho de 2026
CONTRA-ALÍSIOS
Há quem prefira o doce a salgado,
O café a chá.
Há quem prefira o primeiro ao terceiro,
O azul a preto.
Há quem queira o óbvio ao inevidente,
O sonho à realidade.
Há ainda quem deseje o padrão ao
desalinho,
O ponto fixo ao pêndulo.
O café, o preto, o terceiro, o
inevidente, o sonho e o pêndulo.
Eu....prefiro o vento!
quinta-feira, 23 de julho de 2026
IDÍLIO NÃO TÃO MODERNO
A moça na janela
Debruçada de sentinela
Esperando o tal moço
Que piscava para ela
O moço da piscadela
Que antes sorria para ela
Desfazendo o conchego
Transitava com outro apego
A donzela do seu jeito
Rompendo o parapeito
Pensava com certo alento
No seu destino cinzento
Triste moça da janela
O olhar de pura mazela
Mira agora recente aboço
Enlace de um novo esboço
quarta-feira, 22 de julho de 2026
O PASSEIO
Naquela manhã, nem sei dizer o porquê,
resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia
aproveitar a saída aleatória e passar numa feira, para trazer os legumes,
enfim, desfrutar das comodidades daquela minha vontade repentina de caminhar
com as fuças ao vento. Digo, pois tenho a maldita da esteira de caminhar em
casa, que ando dia sim dia não, à revelia, como pedido médico. Mas, naquela manhã,
como disse, não sei por causa de qual impulso, talvez o do destino mesmo, fui a
um parque.
Depois da segunda volta na estradinha de
corrida, já tinha observado os vários tipos que ali corriam, caminhavam, várias
caras de pessoas, elas todas variadas, velhas, novas, magras, gordas, cansadas,
alegres ou tristes, também corriam aqueles, os com qualquer feição que não
cabiam em catálogo. Iam na mesma passada, num círculo sem fim, completando seus
exercícios matinais. Eu... ia junto. Nem sei mais se na terceira volta, vi um
senhor meio que debruçado em uma das árvores. A mão encostada na árvore, meio
curvado, o olhar para baixo, eu encostei levemente nas suas costas e perguntei
se passava mal. Ele me olhou, agradeceu e disse que não, que estava tudo bem,
só estava cansado, e retruquei dizendo se o senhor não queria se sentar naquele
banco, logo depois do bebedouro e beber um pouco de água, e fomos, e percebi
que já estava com minhas mãos no braço fino do velho, na altura do seu
cotovelo, conduzindo-o até o local.
Cabe aqui uma rápida descrição do
senhor, que não tenho intenção de lhe dar um nome, pois não será preciso, mas
sua figura, muito magra, com as várias pelancas da pele enrugadas ao extremo, o
cabelo muito grisalho, quase sem fio preto, as calças de moletom extremamente
largas, o arrastar dos pés, e aquele cheiro de velhice. Depois de sentado, eu
continuei em pé, e insistia na água, ao que ele me respondia que não tinha
sede. Perguntei se havia alguém com ele e obtive um não como resposta. Depois
de alguns minutos pensei que a minha boa ação do dia já estava feita, e tentei emendar
um já vou indo, que foi interrompido pela frase: “Preciso te contar meu segredo,
preciso dizer para alguém, por favor”.
O medo tomou conta de mim
instantaneamente, mas a curiosidade talvez tenha sido senhora e quis ouvir o
relato do desconhecido. Eu não disse nada, apenas sentei ao seu lado, quieto,
resoluto e apreensivo. Ouvi toda a história sem um pio sequer. A cada frase eu
ia ficando cada vez mais estranhamente desesperado, confuso e tristemente
melancólico. O relato era seco, pausado, didaticamente contado. Tinha nascido
os dois filhos, a situação era complicada, criar os dois, vendeu um filho para
adoção, o dinheiro rendeu muitos anos de vida razoável, vendeu, sem a mulher
saber, o outro ficou, a mulher que tinha passado mal no parto, achou que o
segundo tinha morrido, pois foi isso que ele lhe contou, trazendo apenas o
primeiro no colo, que jogou nos braços da mulher, que acamada, apertou e que
nem teve tempo de chorar pela morte do outro que nem viu as caras, nem lhe
abraçou o corpo, só o carregou por alguns meses, e seguiram a vida assim, cada
qual com sua parte da história, um filho vivo ali do lados deles, e o outro
sabe-se lá onde, pois o paradeiro nunca foi, e nem podia, ser descoberto.
E aquele era o segredo que estava lhe
matando dia a dia, que lhe consumia por mais de setenta anos e que era preciso
ser dito para alguém, porque quando se divide o trauma, o delito, a
imprudência, o desatino, a morte parece mais branda de perdão. E eu ali,
estatelado de um sentimento absurdamente desconhecido para mim, eu que tinha
resolvido apenas caminhar no parque, peguei na mão do velho, disse que ele
estava perdoado e segui sem olhar para trás, segui sem olhar para trás, sem
olhar para trás.
terça-feira, 21 de julho de 2026
CRÔNICA DOS QUE SE ENCONTRARAM ( Para Ione, Mário e Wiliam)
Volto a escrever.
Depois do período catártico, que não
convém explicar ou dizer, escrevo. Faço por pedido do amigo que diz: “ se
obrigue a escrever…nem que seja um haicai! ” Na dúvida do que dizer em três
linhas apenas, eu teria que condensar em verso, (duas redondilhas menores e uma
maior, tudo que ficou nesse vão de tempo, nesse tempo que a poesia me fugiu e a
ideia vagou sem uma letra escrita em página qualquer), registrar nossos momentos
efêmeros em modestas três linhas; assim, optei por rabiscar essa crônica, que já
adianto ao leitor, torta, sem vigor, indo de mal a pior, porque essa amadora
escritora estava em desalinho, mas com a intenção de gesto, sim, do maior gesto
possível.
Preâmbulo feito.
Volto a escrever por causa das pessoas,
por causa de mim, de nós, pelo tempo, por todos que sabem que dizer é preciso.
Dizer algo é necessário. Não o que todo mundo já sabe, mas é muito mais
importante dizer aquilo que não se sabe. O encontro de gentes é algo mágico.
Encontrar as pessoas e saber que se pode falar, aprender com elas, ouvir delas
o essencial é aparentemente tão comum, tão banal que muita gente não liga,
ninguém mais quer fazer ou dizer.
Escrevo porque alguém deve dizer o
óbvio, o incontestável poder de dizer e ouvir, de ter amigos que se fazem
presentes no vácuo da vida cotidiana; essa crônica é para eles, sim, eles sabem
que é para esses três, e não poderia ser apenas um verso para cada um, teria
que ser um monte de versos para eles. Essas palavras são para vocês. E eu sei
que vocês sabem que escrevo para vocês.
Voltei a escrever porque eu precisava
dar para eles a certeza de que nosso encontro foi muito essencial, e sempre o
é, sendo curto, sendo longo, não importa, falamos e somos ouvidos, um na medida
do outro, um no gancho do outro porque sabemos fazer o básico bem feito,
sabemos que a conversa, o querer bem, o desarmar-se na confiança é o que nos
une nesse caótico abismo de solidões.
Escrevi porque era preciso dizer para
vocês o quanto tudo isso é muito importante. E que vocês podem mover o mundo, a
pena da escritora, a alegria do encontro e a arte de se doar, simplesmente
porque viver é isso. Recebam o texto com o desejo de que sempre nos encontremos,
para fazer o imprescindível.
HAICAI DO ENCONTRO
Desse encontro
Voltado ao imensurável
O tempo dirá
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
POEMA ATEMPORAL
As coisas não residem no tempo
Se costuram a ele, em pedaços de trapos de memórias
Que antanho, vão se aparecendo
Descaradamente em nossos olhos saudosos
Se o tempo, quando cronológico, engana
Para uns em demora, para outros em segundos
Ele soberano, esquevo, passa e passa e passa
As coisas não se amoldam no tempo
Se desvelam a ele, entretempos, em pequenos
contratempos
Que diuturno, vão se acumulando
Clarividentemente em nossos olhos cansados
Se o tempo, quando memória, perturba
Para uns em tristeza, para outros em alísios
Ele relativo, anacrônico, atrasa e atrasa e atrasa
Todas as coisas são o próprio tempo
Somos o instante, época, era e o momento
Somos as grandezas dos eventos nossos inacabados
Medidas complexas, entremeios de antes e depois
Que intuitivo, constrói histórias atemporais, guardadas
Melancolicamente em nossos corações envelhecidos
sábado, 3 de janeiro de 2026
PRIMEIRO DO ANO
Sem tempo para escrever
e sem ideias do que dizer
sem assunto que pensar
E sem ...
a poesia segue inacabada...
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Mote: Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos. (Saramago em As pequenas memórias) Qual alma não vacila? Oscila.....