quarta-feira, 22 de julho de 2026

O PASSEIO

 

Naquela manhã, nem sei dizer o porquê, resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia aproveitar a saída aleatória e passar numa feira, para trazer os legumes, enfim, desfrutar das comodidades daquela minha vontade repentina de caminhar com as fuças ao vento. Digo, pois tenho a maldita da esteira de caminhar em casa, que ando dia sim dia não, à revelia, como pedido médico. Mas, naquela manhã, como disse, não sei por causa de qual impulso, talvez o do destino mesmo, fui a um parque.

Depois da segunda volta na estradinha de corrida, já tinha observado os vários tipos que ali corriam, caminhavam, várias caras de pessoas, elas todas variadas, velhas, novas, magras, gordas, cansadas, alegres ou tristes, também corriam aqueles, os com qualquer feição que não cabiam em catálogo. Iam na mesma passada, num círculo sem fim, completando seus exercícios matinais. Eu... ia junto. Nem sei mais se na terceira volta, vi um senhor meio que debruçado em uma das árvores. A mão encostada na árvore, meio curvado, o olhar para baixo, eu encostei levemente nas suas costas e perguntei se passava mal. Ele me olhou, agradeceu e disse que não, que estava tudo bem, só estava cansado, e retruquei dizendo se o senhor não queria se sentar naquele banco, logo depois do bebedouro e beber um pouco de água, e fomos, e percebi que já estava com minhas mãos no braço fino do velho, na altura do seu cotovelo, conduzindo-o até o local.

Cabe aqui uma rápida descrição do senhor, que não tenho intenção de lhe dar um nome, pois não será preciso, mas sua figura, muito magra, com as várias pelancas da pele enrugadas ao extremo, o cabelo muito grisalho, quase sem fio preto, as calças de moletom extremamente largas, o arrastar dos pés, e aquele cheiro de velhice. Depois de sentado, eu continuei em pé, e insistia na água, ao que ele me respondia que não tinha sede. Perguntei se havia alguém com ele e obtive um não como resposta. Depois de alguns minutos pensei que a minha boa ação do dia já estava feita, e tentei emendar um já vou indo, que foi interrompido pela frase: “Preciso te contar meu segredo, preciso dizer para alguém, por favor”.

O medo tomou conta de mim instantaneamente, mas a curiosidade talvez tenha sido senhora e quis ouvir o relato do desconhecido. Eu não disse nada, apenas sentei ao seu lado, quieto, resoluto e apreensivo. Ouvi toda a história sem um pio sequer. A cada frase eu ia ficando cada vez mais estranhamente desesperado, confuso e tristemente melancólico. O relato era seco, pausado, didaticamente contado. Tinha nascido os dois filhos, a situação era complicada, criar os dois, vendeu um filho para adoção, o dinheiro rendeu muitos anos de vida razoável, vendeu, sem a mulher saber, o outro ficou, a mulher que tinha passado mal no parto, achou que o segundo tinha morrido, pois foi isso que ele lhe contou, trazendo apenas o primeiro no colo, que jogou nos braços da mulher, que acamada, apertou e que nem teve tempo de chorar pela morte do outro que nem viu as caras, nem lhe abraçou o corpo, só o carregou por alguns meses, e seguiram a vida assim, cada qual com sua parte da história, um filho vivo ali do lados deles, e o outro sabe-se lá onde, pois o paradeiro nunca foi, e nem podia, ser descoberto. 

E aquele era o segredo que estava lhe matando dia a dia, que lhe consumia por mais de setenta anos e que era preciso ser dito para alguém, porque quando se divide o trauma, o delito, a imprudência, o desatino, a morte parece mais branda de perdão. E eu ali, estatelado de um sentimento absurdamente desconhecido para mim, eu que tinha resolvido apenas caminhar no parque, peguei na mão do velho, disse que ele estava perdoado e segui sem olhar para trás, segui sem olhar para trás, sem olhar para trás.

 

 

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

CRÔNICA DOS QUE SE ENCONTRARAM ( Para Ione, Mário e Wiliam)

 

Volto a escrever.

Depois do período catártico, que não convém explicar ou dizer, escrevo. Faço por pedido do amigo que diz: “ se obrigue a escrever…nem que seja um haicai! ” Na dúvida do que dizer em três linhas apenas, eu teria que condensar em verso, (duas redondilhas menores e uma maior, tudo que ficou nesse vão de tempo, nesse tempo que a poesia me fugiu e a ideia vagou sem uma letra escrita em página qualquer), registrar nossos momentos efêmeros em modestas três linhas; assim, optei por rabiscar essa crônica, que já adianto ao leitor, torta, sem vigor, indo de mal a pior, porque essa amadora escritora estava em desalinho, mas com a intenção de gesto, sim, do maior gesto possível.

Preâmbulo feito.

Volto a escrever por causa das pessoas, por causa de mim, de nós, pelo tempo, por todos que sabem que dizer é preciso. Dizer algo é necessário. Não o que todo mundo já sabe, mas é muito mais importante dizer aquilo que não se sabe. O encontro de gentes é algo mágico. Encontrar as pessoas e saber que se pode falar, aprender com elas, ouvir delas o essencial é aparentemente tão comum, tão banal que muita gente não liga, ninguém mais quer fazer ou dizer.

Escrevo porque alguém deve dizer o óbvio, o incontestável poder de dizer e ouvir, de ter amigos que se fazem presentes no vácuo da vida cotidiana; essa crônica é para eles, sim, eles sabem que é para esses três, e não poderia ser apenas um verso para cada um, teria que ser um monte de versos para eles. Essas palavras são para vocês. E eu sei que vocês sabem que escrevo para vocês.

Voltei a escrever porque eu precisava dar para eles a certeza de que nosso encontro foi muito essencial, e sempre o é, sendo curto, sendo longo, não importa, falamos e somos ouvidos, um na medida do outro, um no gancho do outro porque sabemos fazer o básico bem feito, sabemos que a conversa, o querer bem, o desarmar-se na confiança é o que nos une nesse caótico abismo de solidões.

Escrevi porque era preciso dizer para vocês o quanto tudo isso é muito importante. E que vocês podem mover o mundo, a pena da escritora, a alegria do encontro e a arte de se doar, simplesmente porque viver é isso. Recebam o texto com o desejo de que sempre nos encontremos, para fazer o imprescindível.

 


HAICAI DO ENCONTRO

Desse encontro

Voltado ao imensurável

O tempo dirá

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

POEMA ATEMPORAL

  

As coisas não residem no tempo

Se costuram a ele, em pedaços de trapos de memórias

Que antanho, vão se aparecendo

Descaradamente em nossos olhos saudosos

Se o tempo, quando cronológico, engana

Para uns em demora, para outros em segundos

Ele soberano, esquevo, passa e passa e passa

As coisas não se amoldam no tempo

 Se desvelam a ele, entretempos, em pequenos contratempos

Que diuturno, vão se acumulando

Clarividentemente em nossos olhos cansados

Se o tempo, quando memória, perturba

Para uns em tristeza, para outros em alísios

Ele relativo, anacrônico, atrasa e atrasa e atrasa

Todas as coisas são o próprio tempo

Somos o instante, época, era e o momento

Somos as grandezas dos eventos nossos inacabados

Medidas complexas, entremeios de antes e depois

Que intuitivo, constrói histórias atemporais, guardadas

Melancolicamente em nossos corações envelhecidos

Ele finito, temporizado por deus, finda e finda e finda.

sábado, 3 de janeiro de 2026

PRIMEIRO DO ANO

Sem tempo para escrever

e sem ideias do que dizer

sem assunto que pensar

E sem ...

a poesia segue inacabada...

sábado, 16 de agosto de 2025

POEMETO COM MOTE

Mote: Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos. 

(Saramago em As pequenas memórias) 



Qual alma não vacila?

Oscila...

Qual alma caminha?


Minha alma hesitante

manca

alma capenga

caminha, caminha, caminha

Solitária! 




sexta-feira, 15 de agosto de 2025

DOIS AXIOMAS QUAISQUER

 

Por dois amores infinitos passa uma única reta paralela. 


Por um ponto de vista, passa uma única reta paralela,  

chamada de opinião.



domingo, 13 de julho de 2025

Crônica da saudade e um poema sem vergonha

Faz tempo que não tenho tido tempo para escrever. Li hoje uma frase de um amigo em seu Blog: “Sempre que penso em parar de escrever, depois de alguns dias volto atrás e venho aqui burilar alguma coisa do que vai em minh'alma. " (*) 

Li a frase e pensei que tinha que escrever sobre alguma coisa, pois, a necessidade de se dizer algumas coisas, de burilar algo, assim como o amigo disse, que tenho dentro de mim, estava acumulada por muitos meses. Não tenho tido tempo. Saudade.

Escrever hoje é muito necessário! Não para que alguém leia, mas porque preciso que essas coisas saiam de mim. Eu penso demais em tudo. Tudo em mim sai exagerado, eu rio demais, choro demais, observo muito e acredito que todas essas emoções uma hora tem que transbordar e se firmar em algo escrito. Dito isso, ou dito quase isto, não sei se vou conseguir terminar esta crônica como uma crônica. Numa época em que as emoções se confundem todo o tempo, época que estamos muito cansados de tudo, que ninguém sabe mais se é poema ou crônica, se estamos aqui ou acolá, que não sabemos quem somos...  quero poder escrever de tudo um pouco, bem livre,  assim, segue o final...

Poema sem vergonha

Um poema sem vergonha

Nasce...

Se fosse assim, sem burilo

Seria sem-vergonha

Suponho...

A palavra com retoque

Surge...

Se fosse assim, a esmo

Seria improviso...

Um verso sem sentido

Confunde...

Se fosse assim, planejado

Seria estudo...

Um poema sem vergonha

Nasce...

Se é assim ... sentido

Impressentido!

 

 

*Frase retirada do Blog: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/ Instantes

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

QUADRINHA DA CIDADE ALAGADA

O POÇO DE VISITA SE ENTUPIU

DE TANTA VERGONHA FALHOU

DE TAMANHO DESCASO RUIU

BUEIRO, SEU NOME É DINHEIRO!

sábado, 25 de janeiro de 2025

JARDIM DO ÉDEN

 Mote: A história acabou, não haverá nada mais que contar. (Saramago, em Caim)


No bar, o homem embriagado, narra a história da sua vida para o garçom, que  muito pouco ou quase nada interessado, escuta apenas, na intenção de vender mais cervejas. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

TRÍVIA

                                                       




 

 

F E L

     v I C I o

      D o r

      A m o r

      D E S

   

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

TRIPALIUM

 

Imobilizada

Ainda trabalho

Muda a regra

Ainda trabalho

Paga pedágio

Ainda trabalho

Deixo o vislumbre

Ainda trabalho

É o fim

Sem atalho

Que nada...

Mais uns anos de tortura

Sem atalho

É o fim

Ainda trabalho

Deixo o vislumbre

Ainda trabalho

Paga pedágio

Ainda trabalho

Muda a regra

Ainda trabalho

Imobilizada

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

CRÔNICA EXTEMPORÂNEA

É possível parcelar as mágoas em suaves prestações? De preferência sem juros, porque ninguém merece juros disto. Já tive que inutilizar minhas ações, então, por que tenho que ainda pagar por isso tudo? Por favor, parcele. Parcele essa dívida comigo mesmo, para que eu possa entender tamanho boicote social, para que eu possa compreender o motivo pelo qual as pessoas te excluem, se excluem, me excluem. Fui um mau garoto? Somos boas garotas? A quem os olhos viram ações errôneas?  Minhas opiniões problemáticas te tiraram da zona de conforto, ou me colocaram na cova? Meu comportamento foi inadequado ou você se viu no espelho?

É possível parcelar as mágoas em pequenas prestações? Por favor, parcele minha angústia em prestações para vida toda, para que eu tenha tempo de pagar essa dívida moral comigo mesmo; para que eu possa acertar esse déficit a longo prazo e perdoar a minha inadimplência com esse ser humano que é desprezível, que faz julgar e sofrer tão facilmente. Por acaso todo esse descaso se deve ao fato de que não é possível aceitar o que outro diz? Tem coisa que é inafiançável: a fome é inafiançável, a morte, a pobreza. Não cabe aceitação. Você por acaso já sentiu alguma coisa dessas? Se sim, então, parcele, por gentileza.

Não.

É possível providenciar o cancelamento das minhas mágoas? É que o comprador se enganou na compra, o produto veio com atraso e foi entregue em desacordo com o anunciado. Cancele, por gentileza!

 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

PREMISSA

No vagão do trem lotado, 

dois olhares se cruzam. 

Dos olhares ali de todos, 

esses, 

eram os únicos 

que se dispunham ao amor.





domingo, 5 de janeiro de 2025

PRIMEIRO DE ABRIL

 

Era para ser um texto qualquer, um poema, algo que mostrasse a que veio. O texto escrito inaugural, o introito anual. O primeiro do ano, o primogênito, aquele que abre-alas para o restante vir, não importa em que condições. Tudo que começa tem que ser único, ohhhhhhhhh, porque se espera isso do começo, do empeço, porque se quer isso dos inícios; era para ser original, isso original, algo nunca visto, algo nunca escrito. Não veio. Passei os dias tentando escrever o poema, a crônica inicial, o haicai do ano matemático de 2025, o romance que nunca existirá. Ninguém veio. Nem a inspiração, nem a ideia, nem a chuva americanizada de brainstorming, nem uma palavra sequer. Nada.

Assim como na vida, nada é o original, assim, por aqui também não tem como ser.

O PASSEIO

  Naquela manhã, nem sei dizer o porquê, resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia aproveitar a saída aleatória...