Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O PASSEIO

 

Naquela manhã, nem sei dizer o porquê, resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia aproveitar a saída aleatória e passar numa feira, para trazer os legumes, enfim, desfrutar das comodidades daquela minha vontade repentina de caminhar com as fuças ao vento. Digo, pois tenho a maldita da esteira de caminhar em casa, que ando dia sim dia não, à revelia, como pedido médico. Mas, naquela manhã, como disse, não sei por causa de qual impulso, talvez o do destino mesmo, fui a um parque.

Depois da segunda volta na estradinha de corrida, já tinha observado os vários tipos que ali corriam, caminhavam, várias caras de pessoas, elas todas variadas, velhas, novas, magras, gordas, cansadas, alegres ou tristes, também corriam aqueles, os com qualquer feição que não cabiam em catálogo. Iam na mesma passada, num círculo sem fim, completando seus exercícios matinais. Eu... ia junto. Nem sei mais se na terceira volta, vi um senhor meio que debruçado em uma das árvores. A mão encostada na árvore, meio curvado, o olhar para baixo, eu encostei levemente nas suas costas e perguntei se passava mal. Ele me olhou, agradeceu e disse que não, que estava tudo bem, só estava cansado, e retruquei dizendo se o senhor não queria se sentar naquele banco, logo depois do bebedouro e beber um pouco de água, e fomos, e percebi que já estava com minhas mãos no braço fino do velho, na altura do seu cotovelo, conduzindo-o até o local.

Cabe aqui uma rápida descrição do senhor, que não tenho intenção de lhe dar um nome, pois não será preciso, mas sua figura, muito magra, com as várias pelancas da pele enrugadas ao extremo, o cabelo muito grisalho, quase sem fio preto, as calças de moletom extremamente largas, o arrastar dos pés, e aquele cheiro de velhice. Depois de sentado, eu continuei em pé, e insistia na água, ao que ele me respondia que não tinha sede. Perguntei se havia alguém com ele e obtive um não como resposta. Depois de alguns minutos pensei que a minha boa ação do dia já estava feita, e tentei emendar um já vou indo, que foi interrompido pela frase: “Preciso te contar meu segredo, preciso dizer para alguém, por favor”.

O medo tomou conta de mim instantaneamente, mas a curiosidade talvez tenha sido senhora e quis ouvir o relato do desconhecido. Eu não disse nada, apenas sentei ao seu lado, quieto, resoluto e apreensivo. Ouvi toda a história sem um pio sequer. A cada frase eu ia ficando cada vez mais estranhamente desesperado, confuso e tristemente melancólico. O relato era seco, pausado, didaticamente contado. Tinha nascido os dois filhos, a situação era complicada, criar os dois, vendeu um filho para adoção, o dinheiro rendeu muitos anos de vida razoável, vendeu, sem a mulher saber, o outro ficou, a mulher que tinha passado mal no parto, achou que o segundo tinha morrido, pois foi isso que ele lhe contou, trazendo apenas o primeiro no colo, que jogou nos braços da mulher, que acamada, apertou e que nem teve tempo de chorar pela morte do outro que nem viu as caras, nem lhe abraçou o corpo, só o carregou por alguns meses, e seguiram a vida assim, cada qual com sua parte da história, um filho vivo ali do lados deles, e o outro sabe-se lá onde, pois o paradeiro nunca foi, e nem podia, ser descoberto. 

E aquele era o segredo que estava lhe matando dia a dia, que lhe consumia por mais de setenta anos e que era preciso ser dito para alguém, porque quando se divide o trauma, o delito, a imprudência, o desatino, a morte parece mais branda de perdão. E eu ali, estatelado de um sentimento absurdamente desconhecido para mim, eu que tinha resolvido apenas caminhar no parque, peguei na mão do velho, disse que ele estava perdoado e segui sem olhar para trás, segui sem olhar para trás, sem olhar para trás.

 

 

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

CRÔNICA EXTEMPORÂNEA

É possível parcelar as mágoas em suaves prestações? De preferência sem juros, porque ninguém merece juros disto. Já tive que inutilizar minhas ações, então, por que tenho que ainda pagar por isso tudo? Por favor, parcele. Parcele essa dívida comigo mesmo, para que eu possa entender tamanho boicote social, para que eu possa compreender o motivo pelo qual as pessoas te excluem, se excluem, me excluem. Fui um mau garoto? Somos boas garotas? A quem os olhos viram ações errôneas?  Minhas opiniões problemáticas te tiraram da zona de conforto, ou me colocaram na cova? Meu comportamento foi inadequado ou você se viu no espelho?

É possível parcelar as mágoas em pequenas prestações? Por favor, parcele minha angústia em prestações para vida toda, para que eu tenha tempo de pagar essa dívida moral comigo mesmo; para que eu possa acertar esse déficit a longo prazo e perdoar a minha inadimplência com esse ser humano que é desprezível, que faz julgar e sofrer tão facilmente. Por acaso todo esse descaso se deve ao fato de que não é possível aceitar o que outro diz? Tem coisa que é inafiançável: a fome é inafiançável, a morte, a pobreza. Não cabe aceitação. Você por acaso já sentiu alguma coisa dessas? Se sim, então, parcele, por gentileza.

Não.

É possível providenciar o cancelamento das minhas mágoas? É que o comprador se enganou na compra, o produto veio com atraso e foi entregue em desacordo com o anunciado. Cancele, por gentileza!

 


domingo, 29 de dezembro de 2024

CRÔNICA DO GESTO

 

O homem levanta os braços para o alto, com as mãos espalmadas, trêmulas e pede “calma”. A massa de trabalhadores ruidosa e raivosa, olha para ele. O burburinho continua de uma ponta a outra; no grupo de pessoas, umas insatisfeitas e outras esperançosas, a falação é intensa. Ele grita novamente pedindo muita calma, olho no olho, o homem sabe que precisa controlar a situação; ele faz silêncio e olha novamente no olho de cada trabalhador que veio até o sindicato para ouvi-lo.... Silêncio... agora o homem pode falar!

Na volta do trabalho a faxineira, cansada da labuta de limpar, de secar o gelo diário, se depara com a sacola que se mexia num barulho de choro. Sem hesitar, porque o pobre não tem tempo para isso, abre e vê a ninhada de pequenos cachorros abandonados. Não sendo mulher de abandonar ninguém, a senhora sai pela comunidade tentando achar novos donos, pois ela já tem os seus vários bichos e pensa por um rápido momento “que essa gente é ruim demais”.

O rapaz vem pensando que sua namorada estava muito triste, triste mesmo de dar dó; sem conseguir mais uma vez entrar na tão sonhada faculdade, ela teria mais um ano inteiro pela frente. Sem saber o que dizer, o sofrimento dele no vagão do metrô também era de dar pena. “O que vou dizer para ela”, repetidamente ele divagava. Uma menina para do lado dele e diz para ele comprar um brigadeiro, “compra, por favor”, ela insiste que o brigadeiro que ela faz, traz muita alegria para quem come. O rapaz compra os brigadeiros, ele entrega o brigadeiro para sua namorada, e o dia segue mais feliz.

A escritora pensa em como pode escrever sobre os pequenos gestos humanos, aqueles que nos trazem acalanto ou destruição, afáveis ou ignóbeis. Lembrou de como cada gesto, acompanhado ou não de palavra, de ação, modifica a história toda, numa avalanche sem volta. A mulher lembrou do livro que havia ganhado quando ainda criança. Exatos seis anos; ganhou o livro com dedicatória linda, mas lembrou que esse gesto ficara lá traz, junto com a criança que ainda não entendia nada de gestos largos e lindos, porque só pensava em crescer. 

A História dos Nossos Gestos, por Cascudo: “Os Gestos são moedinhas de circulação indispensável e diária, mas ignoramos sua emissão no Tempo.  A crônica, segue para o amigo Mendes.

 

 

 

 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

CRÔNICA TÃO PEQUENA QUE DÁ DÓ

                 Ia começar esta crônica com o título de "croniquinha" e lembrei na mesma hora que odeio diminutivos. E sem pestanejar, tentei puxar na minha memória o motivo pelo qual eu odiava palavras no diminutivo, porque bem sabemos que odiar, é algo muito forte, talvez eu não goste muito de usar. E nessas indas e vindas de pensamentos, parei de pensar neste motivo primeiro, para pensar que sempre tenho sentimentos muito fortes. Tudo em mim transita na esfera do exagero e da oposição, amo demais, odeio demais, trabalho muito ou procastino muito, escrevo exageradamente ou passo meses sem escrever, e por aí vai... E, ainda pensativa, nas coisas, matutei em qual seria o motivo de eu ser exagerada, e também lembrei que sou demasiadamente ansiosa, e não tenho equilíbrio algum e por aí vai também..., e quando dei por mim, a "croniquinha", aquela singela, pensada em ser escrita para hoje, aquela de dar dó, de desanuviar meus pensamentos, minhas angústias e meus cansaços. 

Basta. 

               Numa manhã que não vem ao caso, a moça pensou que seu destino era conhecer alguém que lhe afagasse o coração. Ficar sozinha não era mais uma opção, chega um momento da vida que precisamos cuidar de alguém, é quase que instintivo, necessário mesmo. Assim, ela titubeou, porém, estava certa do ofício. Chegou ao lugar na hora combinada; o rapaz a recebeu com um enorme sorriso e perguntou se ela estava nervosa, e que era assim mesmo, que as pessoas ficavam desse jeito igual ao dela quando faziam isso, mas que a decisão dela era algo lindo de se ver "falta gentileza no mundo". Abriu a porta com cuidado. A moça parada na entrada da porta se esquivou, virou, deu meia volta, virou de novo. Olhou. "Posso abrir a portinhola?" Ela sorriu nervosamente. O rapaz abriu a portinhola e de lá vários gatinhos saíram. A moça riu, nervosa, sem se mexer, ali ficou. Dos vários, teve um que era o seu amor, é sempre assim. O gatinho rajado de laranja e branco deitou no seu pé. Olhou para moça e miou como quem diz "me leva". "Esse gostou de você", o rapaz pegou na mão o gato minúsculo e entregou para ela que ajeitou no colo o pequeno felino. A moça sorriu... o gato sorriu... 

 

Em tempo...talvez eu não goste de diminuir as coisas, falta muita gentileza nesse mundo.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

CRÔNICA DA PRAIA

Estamos sós, porém estamos juntos.

As inseguranças são sempre familiares e em cada história, de cada pessoa, os temas são distintos, mas as dores, as dores, são geralmente parecidas. Chove fraco aqui na praia, e também o mar é agitado. Das histórias dos transeuntes que caminham pela areia suja da praia, que um dia foi limpa, esses humanos que caminham, em meio as pombas, as gaivotas que passeiam com suas pernas lindamente longas e finas, isso tudo junto, eu observo e penso, somos sós, somos juntos e caminhamos.

Assim, parada em frente à barraca de bugigangas uma vendedora me seguia, em cada coisa que eu pegava, e olhava, e vacilava, e recolocava, percebi depois, que ela ia ao lugar que eu havia tirado aquilo, visto e não comprado, a moça "rearrumava", do jeito certo, o dela. O jeito certo. Na vida temos que ter o jeito certo. O seu jeito certo, não é o meu jeito certo que também não é o dele. E assim, estamos sós e somos juntos.  Na última vista, “vou levar este”, a moça sorriu, e deve ter pensado que finalmente, depois do passeio pela loja a fulana compraria algo.

O mar é agitado, tem uma certa névoa e o dia está cinza. Para Camões, o dia deu em chuvoso. E depois de caminhar até a praia agora suja, que um dia foi limpa, ouvi o senhor da outra loja que estava me observando e pensando que eu não era dali, era uma forasteira, avisou “cuidado com o carro”, eu distraidamente, não havia visto,  pensei que ele poderia não ter dito nada, e fiquei pensando como seria a vida dele,  quando olhei, vi que ele estava sentado com uma senhora ao lado, que deveria ser a sua esposa ou não, e eu agradeci fraco, um obrigado como a chuva fina. Estamos sós, mas estamos juntos, vemos o outro, somos juntos e caminhamos.

Sentada em frente ao mar revolto, vi a garota corajosa que entrava onda a onda, com a água pelo joelho. Ela ia e voltava, sozinha, nem olhava para ver se estavam vendo como era um disparate o que ela fazia. Um dia frio, o mar bravo, a névoa quase garoa, e a garota-coragem ali, porque não era justo no seu único dia de praia, não ter vindo Sol. Talvez, ela pensasse isto, e eu digo isso, porque eu pensei nisso, nos reveses que a vida dá, não é justo, não é justo. Estamos tão sós, nos sentimos tão sós, contudo juntos, sobrevivemos.

E então, cada história de injustiça, de incompreensão, de divergência, percebo que no final de tudo isso, de todas as coisas, a moça da loja, o velho e sua sei lá esposa, as pombas, as gaivotas, a menina coragem, eu, você, eles; todos nós estamos aqui, com nossas histórias e casos,dores, manias, opiniões, pensativos, juntos, esperando o Sol.

  

domingo, 3 de março de 2024

FOTOGRAFEI VOCÊ NA MINHA...

 


         O famoso lambe-lambe e sua potente "rolleiflex" entram num recinto...

         A luz não importa, nem sequer é necessário um refletor para que seus dedos ágeis e duros apertem o botão e um flash sorridente capture o instante.

         No seu transtorno-maníaco-compulsivo-obsessivo, obseda na imaginação o melhor ângulo da figura que se move em sua frente. Atenção! Um corpo que chega, um algo que se movimenta, um rosto que lamenta, uma boca que canta, um instrumento que toca, o rebolar dos quadris, a pose da moça, um "fotofóbico" que balança e o cão que ri. Não há objeto para a objetiva que retrata o indelével.

         Como se não bastasse, o impávido fotógrafo precisa também ser parte da sua sétima ou décima arte, e num revés desesperado, em toda a loucura, procura uma regra-três que com seu dedo substituto em riste, faça surgir num “click” a imagem congelada do exímio-louco que lhe sorri.

         E todos os instantes não revelados,  nem coloridos tampouco pretos e brancos se avolumam nas páginas solitárias virtuais, a espera de outro olhar que saudoso relembre o momento e gargalhe ou chore ou... odeio ser fotografado. Já diziam que rouba minha alma.

         Lá vai o famoso lambe-lambe produzir suas fotos-legenda.

         “E não é que você ficou bem na foto”.

 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

CRÔNICA DA FICÇÃO QUASE CIENTÍFICA, SÓ QUE NÃO

 

Galileu, pressionado, foi convidado pela santa inquisição (em minúscula mesmo), a abandonar as suas convicções cientificamente comprovadas de que a Terra se movia em torno do Sol. Assim, tal como Galileu, seguimos caminhando lado a lado com a ficção, quase científica, tanto no gênero quanto na vida. A Terra agora plana, tal como o chão que pisamos, acaba na linha tênue do absurdo, da desinformação e da tentativa de plantar a ignorância. Na dúvida, pergunte. Escolha entre qual a pílula irá tomar, a que permitirá que esqueçamos de algo que já aconteceu na utopia virtual desse mundo moderno e que só enxerga o que se quer, ou a outra, que nos levará ao mundo real. Não importa, na dúvida, estude. Chegamos em um ponto tão crucial, que nem os gêneros se salvarão; os limites das grandes histórias não terão mais enredos inspiradores, estaremos sujeitos aos que querem a todo custo esconder a realidade.  Nas narrativas inverossímeis que imitam o cotidiano, o experimento caminha junto à descoberta, e a ciência caminha junto ao negacionismo. Um ali tentando ir contra o outro, negando o óbvio, comprovado por várias verdades. Cada um com sua verdade? Talvez? Não, só que não. Uma verdade só pode ser derrubada ou substituída por outra verdade mais científica ainda. Deixe para a ficção, quase científica, as elucubrações dos quase fatos cientificamente comprovados; não se deixe levar pelo quase científico, pela ficção, por pílulas azuis, fake das fakes, pesquise, conteste, grite, pergunte, e assim como o astronauta Aldrin, dê um soco no queixo de quem duvidar da Ciência.

sábado, 27 de janeiro de 2024

Crônica do abraço

            

As cinco senhoras sentadas perto da piscina discutiam fervorosamente sobre os aspectos da comida servida na pousada em que estavam. De férias da vida solitária, e ou, da vida monótona da cidade, aquelas mulheres com mais de sessenta anos estavam ali procurando o que viver.

Assim, na calorosa discussão sobre o café da manhã, almoço e jantar, argumentavam muito mais do que a própria filosofia possa dar conta. Entre teses e antíteses, chegaram na síntese de que, salvo exceções, a comida tinha caído de nível em relação às últimas temporadas.  Eu escutava tudo aquilo com muita atenção, das frases mais hilárias, desde a qualidade da linguiça que fora servida três vezes na semana, sem mudar nada em seu aspecto que pudesse modificá-la em essência, até o fato de colocarem coco ralado em todas as sobremesas para aumentar o volume, todas as frases eram seguidas de fortes argumentos. E de fato, concluíram na queda de qualidade em relação aos anos anteriores: “no passado tinha batata frita de verdade, duas ou três proteínas a sua escolha e mousse de chocolate”

Assim, seguia apreciando as discussões, as justificativas, quando senti algo em minhas costas. A pequena garotinha, com sua mão minúscula, cujas unhas estavam pintadas de rosa, acariciava minhas costas em gestos largos. Olhei para ela e sorri, ela também sorriu do seu jeito; um jeito diferente do que chamamos de normal, mas isso não importa agora. Tentei travar uma conversa, mas ela não falava, apenas sorria, sua condição neste mundo era simplesmente sorrir e caminhar. Recebi este carinho, e retribui abraçando a magreza de suas costas.

Ficamos assim, por um longo período, sem dizer palavra, abraçadas, ora os olhos cruzavam, ora os sorrisos vinham. Interrompida pela mãe, que desculpou-se, dizendo que ela estava atrapalhando, e puxando a garotinha pela mão, levando-a embora, e, enquanto eu dizia a tradicional frase, “imagina, não estava atrapalhando nada”, as duas já haviam sumido da minha visão constrangida.

Assim. Assim é o átimo do que é viver. Ninguém estava me atrapalhando. Da conversa apaixonante das senhoras que tornavam aquele meu viver, um instante divertidamente inesquecível, até o abraço da menina que escolheu me acarinhar, seguimos vivendo na esperança, seguimos olhando para os detalhes, percebendo os pequenos gestos largos que vão acariciando a nossa vida, e assim, sim, destes instantes...caminhamos.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O dia deu..

 O dia deu em chuvoso, Camões disse isso lá atrás num soneto, dos mais lindos poemas que já vi. Assim, a chuva produz algum sentimento, nem sempre é apenas de tristeza,  muitos devaneios ,  às vezes obviedades, também um tanto de amargura, e quase sempre melancolia; hoje diferentemente disso, ou daquilo, trouxe reflexão. Um pássaro aqui na minha frente está a banhar-se e assim, vendo o movimento tão feliz, de lá para cá, molhando as asas e sacudindo a poeira da poluição, parecia feliz. E assim, como o bicho, eu aqui vendo a chuva prazenteira, tentando escrever sobre o que não se pode escrever, pensando no revés que a chuva traz, no sim e no não, no alegre, ora triste,  não consigo deixar de estar confusa. O dia deu em chuvoso. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

A ARTE DE SE DECEPCIONAR

          Se decepcionar é uma arte. 

     Sim, na verdade uma das sete maravilhas e certamente o oitavo pecado capital. Ouvi recentemente que a preguiça é o melhor dos pecados porque, sendo ele o primordial, não cometemos os outros seis. Assim, se decepcionar é um pecado. Sim, total perda de tempo, mas... então qual o motivo? 

    A decepção, segundo o Aurélio é um substantivo feminino que significa sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração pela ocorrência de fato inesperado, que representa um mal, enorme desilusão, desapontamento,e, desta forma, a decpção é minha, eu sinto, você sente, nós sentimos. O que difere de se decepcionar, que também segundo Aurélio, é um verbo, e que quando transitivo, tem a função de provocar a decepção; mas, porém, quando intransitivo, significa ter um comportamento de fracasso. 

   Desta maneira, a decepção é um problema morfológico, da categoria das classes gramaticais, ou ainda, pensando melhor, da falta de classe, de percepção e de gentileza. 

"Seja menas" e perdoe a falta de tato! O Aurélio, esse não perdoa!

domingo, 19 de novembro de 2023

UM TEXTO QUALQUER

Hoje, escrever é tão necessário quanto dizer para quem se ama, que ama. Assim, achar o assunto também é tão necessário quanto qualquer outra coisa. Muitas vezes, muitas mesmo, fico muito irritada quando vejo coisas escritas porcamente, desculpa, tira o porcamente...quando vejo coisas escritas, do assunto que as pessoas querem ler. Enfim, estou aborrecida. Um escritor deve apenas escrever? Escrever para quem? Eu estou muito arrependida de pensar assim, mas não consigo pensar diferente. Tem tanta coisa publicada. Queria ser lida, apreciada, estudada. Muito mesmo. Antes, eu acho que eu não queria, mas agora sinto esse querer. Queria meu poema na folha da prova do Enem, com todos aqueles angustiados estudantes tentando entender a metáfora que eu fiz, e que eu nem sei o que significa, desculpa, mas eu queria. Também pensei, naquele livro de crônicas com a minha assinatura que pensei ser MCsantos, parecendo nome de navio que cruza a costa, mar afora, mas, eu queria, o tal livro cheirando a tinta, com meu nome,  impresso na mão de quem gosta de ler qualquer coisa boa. Se eu acho que aquilo que escrevo é bom? Hoje eu penso que sim. Antes eu não pensava nisso. Agora eu acho bom, mas desculpa, porque tem uma hora que achar o assunto, ver o que nos motiva, o que empurra, é tão difícil. Sim, eu queria muito o livro de poemas também, da mesma autora das crônicas, aquela MCsantos, que também escreve crônica, MCsantos, parecendo nome de funkeiro, que tem haicai, coisa de criança, aquela que escreve um texto qualquer e que não escreveu uma história ainda, talvez...porque não tinha o assunto certo.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

CRÔNICA ANDARILHO

 

Há que se ter um mote para vida. É aquela coisa que não tem nome, mas que nos faz levantar e ir. Andar, caminhar, sem olhar para trás. Chavão ou não, o homem sabia disso. O homem tinha tido na vida várias motivações, porém, essa era além do óbvio porque perpassava pelo orgulho, por sua honra, determinação e necessidade, e claro, por amor.  

Pausa.                                                                                                                                

Quando o menino nasceu, ainda bebê, o homem viu que algo na criança era diferente. Talvez porque realmente era, mas, mais ainda, porque o olhar deles nunca havia se encontrado. Assim, foram os dois crescendo como pai e filho, sem nunca terem se visto de verdade. A mulher achou por bem levar ao médico, e depois do diagnóstico, nada mudou. Também nem se deve o leitor achar que precisa saber do tal laudo, e do que o menino tinha. Todo mundo tem alguma coisa, e a nossa mente é um  abismo; o fato não é o laudo, a causa, a especialidade, o fato é a motivação.

Entende.

E conforme o tempo foi passando, o que para uns se torna deficiência, inabilidade, para outros é o brilho. E o filho cresceu fora do prumo, longe da escala do cotidiano, cresceu com outro olhar. Da boca nada saia, porque o menino não falava e não olhava. Na escola o problema menor era esse, pois, como o brilho das notas era muito, mas muito maior, ninguém ligava para o restante. O garoto-gênio ia crescendo longe dos seus.

Anda.

Num certo dia, o pai reconheceu que era preciso chegar mais perto. Assim, com menos de quinze anos, foram tentar uma vaga na faculdade de Química da Universidade de São Paulo. O menino foi aceito, e posteriormente, no curso avançado, passeava na análise e descrição dos mecanismos de reação e intermediários reacionais, nos estudos das reações de substituição e reações de adição e eliminação, e não menos importante, as reações concertadas e rearranjos moleculares. Sumidade.  Aos quinze anos, se comunicava pelo brilhantismo, pelo computador, por artigos e mais artigos, prêmios, pelo que descobria e por tudo que sua ausência produzia.

 

Suspiro.

Desse jeito, o homem, então, agora tantos anos depois, nada sabia do filho, e deixava-o ser; via aquele, agora doutor, rapazote, reconhecido, nos saberes de algo que o homem desconhecia, como pai, como pessoa; ignorante no assunto da vida do filho e até o que ele estudava, sem nem saber para que servia aquilo tudo. Mas quem se importa com isso? Todo santo dia, o homem sai de casa, acompanhado do filho, nessa ordem: o filho na frente, mochila nas costas, o pai atrás, guardando, andarilhos.

 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

CRÔNICA DA GENTILEZA

 

                 Naquele dia o rapaz foi conversar com a velha senhora solitária, porque sabia que era preciso fazer com que ela falasse, era preciso deixar ela falar. E vejam só como a mulher vomitou toda sua retrospectiva da vida, com pormenores e também com direito aos detalhes sórdidos. E o rapaz ouviu-a; escutou cada centímetro da prosa, porque sabia que a solidão amargava o ser. 

                 Naquela tarde a garota foi buscar a velha senhora, levou-a às compras, para a farmácia, deixou que a idosa combinasse como seria melhor o que seria feito na hora do jantar. Apenas levou-a, acompanhou-a e deixou que tudo fosse feito á maneira dela, da velha senhora, que escolhia as frutas e lamentava o dia, reclamando ao exagero de tudo,  como quem nunca viu um céu azul, ou uma flor a abrir. A garota fez tudo sorrindo, porque sabia que a solidão cegava o ser.

                Naquela noite a mulher foi ligar para o velho senhor. Deixou que ele falasse tudo que podia depois do alô, mas nada ouviu. Pensou que poderia fazer o velho dizer meia palavra, mas só ouvia a respiração ofegante do outro lado da linha. Tentou mais uma vez perguntar o aleatório, puxar a prosa, mas ouviu a mesma tosse de sempre e o pigarrear da garganta do velho, que nada de som maior emitia. Assim, decidiu dizer "boa noite", "durma bem" e "se cuide", como sempre dizia.  A mulher ligou, e ligaria sempre, porque sabia que a solidão emudecia o ser.

    Sorria: você está sendo humanizado!

quarta-feira, 22 de junho de 2022

PRÔ

 

E não se fala mais nisso...

 

                Não me lembro de quando decidi ser professora. Talvez o destino tenha me empurrado e dito “vai que você leva jeito”. Porém, mais do que ter jeito para a coisa, descobri que um professor precisa de absolutamente tudo o que cabe num ser, pois é alguém inolvidável. Dos ruins, carregamos os traumas, dos bons as lembranças, mas o que não se pode negar é que aprendemos com um professor.

                Nessas quase duas décadas que leciono, passei por acertos, erros, tentativas, enganos e a cada dia que passa, sinto que estamos por um fio, eu estou. Tanta gente já esmiuçou o problema da educação, o desprestígio do professorado, as metodologias ultrapassadas e as novas que não dão certo; os distúrbios que dificultam o aprendiz e também o mestre evidentemente; novos nomes para velhos problemas. Enfim, acho muito relevante que alguns estudiosos tentem achar o cerne da questão, principalmente daqueles que o fizeram de forma séria e comprometida, merecem meu respeito.

                Longe de discutir a salvação dos problemas da Educação brasileira minha intenção é saber o porquê alguns de nós não desiste. Por que eu não desisto? O que nos move? Diante disso, passo algumas horas do meu dia, em meio ás aulas, provas, preparações, estudos, diários e afins, pensando o que faria para não desistir e abrir uma lojinha no fim da esquina.  O que de fato, no entanto me fomenta, por incrível que pareça não é um bônus por merecimento, ou uma provinha por mérito, ou ainda, a participação nos lucros da escola, são os alunos.

                O que move verdadeiramente uma professora- porque eu ainda vejo isso no rosto de algumas colegas de trabalho- o que me motiva é a pessoa, ali, entregue, o sorriso do aluno, seu interesse pelo desconhecido e a possibilidade de ser conduzido, mesmo que tortuosamente, ao caminho da descoberta; é aquela carinha de entendimento, aquele texto bem escrito por ele e muito melhor até do que nós mestres faríamos, as homenagens, os bilhetinhos de amor, o respeito pelo meu conhecimento, a entrega e a confiança dos pais em mim e no meu, no nosso trabalho, porque para eles o que resta é apostar na gente.

                Sem apologia, sem levantar bandeiras, é simples assim. E não se fala mais nisso...

               

segunda-feira, 2 de maio de 2022

FALA

 HÁ QUANTO TEMPO

VOCÊ NÃO FALA?

NESSES TEMPOS EM QUE PENSAMOS MUITO NO PEQUENO AFAZER DO DIA, E ESQUENTO O CAFÉ, E COLOCO A ROUPA E SIGO;

NESSES DIAS EM QUE PENSAMOS MUITO NO QUE VAMOS COMER, E COMPRAR, E PASSO O MEU CARTÃO DE CRÉDITO E SIGO;

HÁ QUANTO TEMPO

VOCÊ SE CALA?

NESSES MESES EM QUE PENSAMOS NAQUILO QUE FAREMOS NO FINAL DO ANO, SE É QUE FAREMOS, E GUARDO UM DINHEIRO, E FAÇO UM BOLETO E SIGO;

NESSES ANOS EM QUE VIMOS QUE O TEMPO PASSOU TÃO RÁPIDO, E QUE EU E VOCÊ SÓ TRABALHAMOS E GASTAMOS, E FIZEMOS, E PASSAMOS OS CARTÕES, AQUI E ALI...

HÁ QUANTO TEMPO

VOCÊ NÃO SORRI?

FALA, FALA, FALA


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Crônica dos confins

 

Tudo aumentou nesses meses de confinamento, as contas de água e luz, a comida, o arroz, veja só, quem diria, o arroz; e também tudo aumentou dentro da nossa casa, dentro de nós mesmos, dentro desse universo pandêmico. O nome, pandemia, caracteriza bem como nos sentimos, de mãos atadas, presos em uma cela imaginária, em que todas as coisas ficam enormes e muito mais difíceis. Pensar nisso tudo gera um enorme desgaste e buscamos uma paz e alegrias que estão raras em vir.

Entender tudo isso, quais são os limites do meu eu?E do teu? Quer que eu te ajude a arrumar a casa? Que te ajude a ficar bem? A limpar as coisas? A fazer comida? Se me perguntam isso, se te perguntam, talvez seja porque a obrigação de limpar, cozinhar e ficar bem, seja minha e tua. Tudo fica tão enorme, um gesto, meu, teu, uma fala, uma falta de percepção... E o que fazer se todos estão na desesperada tentativa de se manterem ilesos diante de tanto desconforto, e de tanto medo? Nada.

Esperamos a vacina da mesma forma que esperamos que tudo passe logo, porque já não sabemos mais o que fazer com o que descobrimos sobre nós mesmos, sobre os que cá estão junto de nós, sobre o mundo, as pessoas, o arroz, as matas, as burrices dos homens, as maldades, os....os confins da fragilidade humana.

 

sábado, 29 de agosto de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMA

 


Há certa dificuldade na vida, na conversa, e, arriscaria dizer em quase tudo, de se caminhar sem um tema. Parece-me que visto assim, solto, qualquer coisa vira andarilho. Ou algo que vai vagar por ali e por acolá à procura de um chegar, de um ponto final, de um rumo.

Posto, posso arriscar dizer de novo, que há muito em que se pensar e talvez muito pouco a se dizer, nesse momento.  Em se tratando que a matéria é complexa e a sugestão que vem é de deixar o correr livre das palavras, das construções e das metáforas, se é que ainda sem fazê-las, tudo mesmo, me coça o espírito de incertezas e não sei se sei fazer isso.

Preciso dizer que muito me assusta esse dizer, sem dizer, dizendo, algo, sei lá, sem uma costura, e sem alinhavos em uma trilha temática, sem aquela intenção, qualquer intenção, boa, ruim, qualquer mesmo, de qual assunto eu mesma nem sei. Isso me pesou o pensar durante toda a semana. Fiquei quase sem rumo em quase tudo e toda essa repetição de verbetes é para ratificar minha insegurança em não se ter sobre o que falar.

Assim, hoje, acho que prefiro mesmo ela, a poesia que me lança em alguma coisa que mesmo sem um tema prévio faz cuspir um verso que sozinho pode ser tema de alguém. Esse...

sábado, 13 de junho de 2020

VISTA CANSADA OU CRÔNICA DA ARANHA





A pandemia me trouxe uma lição: a vista e o ângulo das coisas não são nunca iguais. Dito isso, creio que fica bem à mostra, que o que se vê é sempre o instante, talvez também seja o que se fala. Mudar de opinião é moleza em tempos de reclusão, de resguardo sem ter parido e de cárcere domiciliar. Dito isso também, o mote dessa crônica não é político, embora talvez até sirva, não é pandêmico, o que move esse assunto é o olhar.
A vista ora cansada de não ver o que de costume era, passa a mirar o estranho, o belo, o esquisito. E antes, como não havia tempo para isso, olhávamos sem ver. Sempre havia visto as aranhas, nem sei se gosto de aranhas, porque jamais havia pensado nelas dessa maneira. O fato é que estava tomando um banho de Sol e pensava nos presos que tomam esse mesmo banho, e eu pensava no que eles talvez estivessem pensando; enfim, decidi tirar uma foto do ângulo do céu que se formava junto à cumeeira.
Tirei.
Ficou razoável para quem é bem amador nisso. Virei o rosto e lá estava a minúscula aranha. Olhava para mim, eu creio, e estava a centímetros do meu cabelo. Desviei com calma a cabeça para que pudesse vê-la inteira.
Tirei.
 Ela andou e tirei outra. No que ela, aranha pensava, eu realmente não sei, mas, sei no que eu pensava. Pensava que temos a vista cansada, que o estamos vendo agora é só instante, sim nossas vistas estão muito cansadas, e agora estamos muito diferentes, muito mesmo, do que éramos.
 


quinta-feira, 11 de junho de 2020

CORAGEM


A coragem que a vida tem de desabar sobre as nossas cabeças é algo que nos passa sempre despercebido. Enquanto nosso olhar transita pelo óbvio e muitas vezes para o distanciamento, a vida vai desenhando os pormenores que nos escapam feito o vento. Caminhamos com o rosto virado para direções sempre únicas, com rédeas que nos impedem de enxergar pequenos detalhes e minúsculas ações.

De um sorriso não visto até uma flor ridiculamente aberta, o que nos empurra para seguir vivendo nunca são as sutilezas, mas sim os arrebatamentos. Talvez seja porque nossa eterna dúvida sobre o que estamos fazendo aqui e a nossa certeza absoluta de que vamos morrer, caminhem lado a lado, tenuemente ligadas por um ser incerto, incompleto e cheio de perguntas.

Nessa manhã acordei diferente. Pensei que o tempo de ontem tinha passado depressa demais para a criança que havia sido outrora adolescente e agora adulta. Nesses pensamentos todos e ora tolos, desejei mais lembrar-me de todas as grandes delicadezas e pequenas agudezas de espírito do que dos meus grandes ou tortuosos feitos. Nessa manhã acordei mais velha e certamente com maior coragem para olhar para vida, como jamais havia olhado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CRÔNICA DA TEORIA


Tenho uma teoria. E as teorias não servem para absolutamente nada, enquanto teorias, portanto, caro leitor leia essa crônica como desejar.

Tenho uma teoria sobre as relações pessoais via redes sociais. E quando mencionado tal conhecimento especulativo para uma pessoa, em conversa informal, fui duramente refutada; mas, exponho aqui, porque é preciso dizer ás coisas que temos vontade.

Minha teoria bastarda diz que se é possível conhecer as pessoas por àquilo que postam em suas redes sociais virtuais. Quando analiso as postagens sei exatamente se aquela pessoa está triste, se está carecendo de atenção, se está apenas querendo aparecer, se quer se firmar no tempo, se sumiu, porque não posta nada, se deseja adular, conquistar terreno, ser agressiva, engraçada apenas, melancólica...

Segundo minhas regras, parcamente sistematizadas, segundo a minha ótica, consigo decifrar como as pessoas são e mais, como estão no momento.

Teorias são apenas isso, e essa é só mais uma. Enquanto não vira nada, vou usando minha percepção dos fatos verificáveis, ora para entender mais meus conhecidos e amigos, ora para nada mesmo, apenas para pensar.

O FLAGRANTE

  Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha...