Naquela manhã, nem sei dizer o porquê,
resolvi pegar o carro e caminhar em um parque, e talvez, depois, podia
aproveitar a saída aleatória e passar numa feira, para trazer os legumes,
enfim, desfrutar das comodidades daquela minha vontade repentina de caminhar
com as fuças ao vento. Digo, pois tenho a maldita da esteira de caminhar em
casa, que ando dia sim dia não, à revelia, como pedido médico. Mas, naquela manhã,
como disse, não sei por causa de qual impulso, talvez o do destino mesmo, fui a
um parque.
Depois da segunda volta na estradinha de
corrida, já tinha observado os vários tipos que ali corriam, caminhavam, várias
caras de pessoas, elas todas variadas, velhas, novas, magras, gordas, cansadas,
alegres ou tristes, também corriam aqueles, os com qualquer feição que não
cabiam em catálogo. Iam na mesma passada, num círculo sem fim, completando seus
exercícios matinais. Eu... ia junto. Nem sei mais se na terceira volta, vi um
senhor meio que debruçado em uma das árvores. A mão encostada na árvore, meio
curvado, o olhar para baixo, eu encostei levemente nas suas costas e perguntei
se passava mal. Ele me olhou, agradeceu e disse que não, que estava tudo bem,
só estava cansado, e retruquei dizendo se o senhor não queria se sentar naquele
banco, logo depois do bebedouro e beber um pouco de água, e fomos, e percebi
que já estava com minhas mãos no braço fino do velho, na altura do seu
cotovelo, conduzindo-o até o local.
Cabe aqui uma rápida descrição do
senhor, que não tenho intenção de lhe dar um nome, pois não será preciso, mas
sua figura, muito magra, com as várias pelancas da pele enrugadas ao extremo, o
cabelo muito grisalho, quase sem fio preto, as calças de moletom extremamente
largas, o arrastar dos pés, e aquele cheiro de velhice. Depois de sentado, eu
continuei em pé, e insistia na água, ao que ele me respondia que não tinha
sede. Perguntei se havia alguém com ele e obtive um não como resposta. Depois
de alguns minutos pensei que a minha boa ação do dia já estava feita, e tentei emendar
um já vou indo, que foi interrompido pela frase: “Preciso te contar meu segredo,
preciso dizer para alguém, por favor”.
O medo tomou conta de mim
instantaneamente, mas a curiosidade talvez tenha sido senhora e quis ouvir o
relato do desconhecido. Eu não disse nada, apenas sentei ao seu lado, quieto,
resoluto e apreensivo. Ouvi toda a história sem um pio sequer. A cada frase eu
ia ficando cada vez mais estranhamente desesperado, confuso e tristemente
melancólico. O relato era seco, pausado, didaticamente contado. Tinha nascido
os dois filhos, a situação era complicada, criar os dois, vendeu um filho para
adoção, o dinheiro rendeu muitos anos de vida razoável, vendeu, sem a mulher
saber, o outro ficou, a mulher que tinha passado mal no parto, achou que o
segundo tinha morrido, pois foi isso que ele lhe contou, trazendo apenas o
primeiro no colo, que jogou nos braços da mulher, que acamada, apertou e que
nem teve tempo de chorar pela morte do outro que nem viu as caras, nem lhe
abraçou o corpo, só o carregou por alguns meses, e seguiram a vida assim, cada
qual com sua parte da história, um filho vivo ali do lados deles, e o outro
sabe-se lá onde, pois o paradeiro nunca foi, e nem podia, ser descoberto.
E aquele era o segredo que estava lhe
matando dia a dia, que lhe consumia por mais de setenta anos e que era preciso
ser dito para alguém, porque quando se divide o trauma, o delito, a
imprudência, o desatino, a morte parece mais branda de perdão. E eu ali,
estatelado de um sentimento absurdamente desconhecido para mim, eu que tinha
resolvido apenas caminhar no parque, peguei na mão do velho, disse que ele
estava perdoado e segui sem olhar para trás, segui sem olhar para trás, sem
olhar para trás.
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