domingo, 22 de dezembro de 2013

QUINHENTÃO


Caro leitor não comece essa leitura se não estiver com ânimo, visto que a matéria é longa e requer parte de seu tempo e talvez nada de grande te acrescente, considere apenas um desabafo, se é que pretende seguir.

Hoje comemoro quinhentas publicações nesse Blog Valsa Literária. Para mim mais que um feito, é uma conquista. Comecei a escrever com exatos quarenta anos, isto é, escrever algo de literatura, se é que posso chamar assim, escrever de verdade tantas mentiras, publicamente e agora aos quarenta e três, olho para esses poucos três anos com olhos de satisfação. Por que demorei tanto para começar a escrever? Simples, não sei ainda dizer; não sei se quero escarafunchar a temática, ou ainda, saiba lá no fundão e não queira ver; pouco importa agora. O que sei é que por analogia, peço a vocês que imaginem uma banheira a se encher e que de repente quase por transbordar, alguém venha e destampe, deixando que o líquido escorra gradativamente, porque é da sua natureza fazê-lo. No início, um grande amigo provocava-me com e-mails, solicitando mais do que respostas, repentes literários, pequenas quadras, poemetos. Nessa troca inusitada, a água estava por esvair-se ralo abaixo, e eu já não tinha mais o controle; gostei e senti como algo escandalosamente bom e necessário, queria escrever, timidamente, claro, no começo, mas depois a vazão aumentou, e a minha necessidade era a pulso, de chofre, vital. Sofria diariamente com minhas duras e próprias críticas, depois de feitas minhas escrituras, lia com olhos de leitora e não gostava de grande parte, não achava o estilo, percebia a falta da gramática normativa, errava nas vírgulas, construía subordinadas desconexas. Como sofria. Bem pouco tempo, em conversa com esse meu essencial amigo, poeta, escritor e compositor da melhor qualidade, debatíamos sobre a temática escrever e ler, escritor e leitor, e fui vencida pelas suas palavras que tomo por empréstimo aqui transcrito: “O escritor existe sem os leitores. Já que, desde que ele escreva e seja portador de um ou mais globos oculares, terá fatalmente que ler o que escreveu, então, será via de regra leitor também. Logo, existirá como leitor de si, justificando a existência do escritor, que é. Já o leitor, sem o escritor não pode ser leitor, a não ser que estejamos falando de um leitor de código de barras, o que equivaleria a um carcerário de prisão de segurança máxima despopulado. Marili existe porque existe. Jairo existe porque seu nariz. André existe porque o nariz do Jairo existe apontando para a existência de Marili. Fábio existe porque senão eu não existiria. E eu existo porque sim.”

Não sofro tanto mais, agonizo se não escrevo, porque tudo sai pela culatra como se cuspido fosse e não me pertencesse agora, ontem e nunca; se leio já não se parece comigo, não fui eu quem escreveu, tomou parte em universo que hoje desconheço e que tento caminhar ao lado sem qualquer expectativa de entendimento. Que delícia poder deixar o ralo destampado, sem a culpa do gasto. Que bom poder desatarraxar os nós da literatura e dar uma banana ao estilo. Que sensação única poder agora rasgar os tomos da gramática. Isso não mais pertence a essa escritora. Que venha a eternidade!

           

 


 

 

2 comentários:

William Mendes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
William Mendes disse...

Seu "Quinhentão" me fez refletir, já enquanto lia o texto. Nas suas confissões e justificativas, encontrei até justificativas para mim mesmo, e nas explicações de seu amigo poeta também. Quer dizer, se eu escrevo, e preciso ler o que escrevo, já sou um leitor que justifica o que eu mesmo escrevo. E quantas vezes não me aconteceu de encontrar uma justificativa para o que escrevi ao ler o eu mesmo dizendo as coisas no ontem, coisas lidas por mim depois, às vezes, anos depois!!! Quedei pensando sobre suas reflexões... Abraços fraternos, Marili! Obrigado por escrever! Aliás, você não está escrevendo aqui para nós, minha amiga! E lendo tudo o que você escreveu nesses três anos, nas quinhentas obras de arte, a gente entende que você deveria ou poderia estar escrevendo, até mesmo para ti, como tantos escritores que às vezes escrevem só para si mesmos, como este escriba aqui, que te lê e escreve neste instante. Enfim, se quiser, se puder, escreva, Marili. Abraços à família linda! William

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