era o branco
que virou negro
que virou de esquerda
que deixou de ser negro
que era de direita
que gostava do pardo
que veio de lá
que gostava do índio
que não gostava e
que não torcia para ninguém
o branco virou
homofóbico
o negro foi fazer faculdade
o pardo está em cima do muro
não sabe se volta para lá
e o índio...
o indío, que maçada...
foi tratar de ser índio, oras!
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
RESSACA
tanto mar há
na minha palavra
de ressaca
vai e não vem
diz que tem
reflexo de mim
a poesia é salgada
há choro no mar
conturbado o poetar
vem e não vai
ondulatório verso
que não sai
na minha palavra
de ressaca
vai e não vem
diz que tem
reflexo de mim
a poesia é salgada
há choro no mar
conturbado o poetar
vem e não vai
ondulatório verso
que não sai
terça-feira, 26 de agosto de 2014
POEIRA
A mulher passa o dedo sobre o piano fechado e mudo. A grossa poeira gruda em seu dedo indicador, há na poeira o indício do tempo, há no seu dedo fragmentos de passado. Com um pano limpo resolve retirar o tempo ali depositado em forma de fungos, bactérias e vestígios mortos. A música já não se ouve mais. Passa várias vezes o pano seco. Decide molhar com algo. Sem compasso. Lembra-se do óleo de peroba e volta a dar um brilho no tampo. Lustra. Acha que ficou embaçado e retoca com a flanela. Abre a tampa e vê as teclas amareladas, nada pode se fazer contra o amarelado da saudade.
O piano continua em silêncio e a mulher também.
sábado, 16 de agosto de 2014
POR...VIR
Tenho visto pouca coisa, tenho escutado tão pouco, só tenho sentido o cheiro das fumaças dos carros, porque não tenho tido tempo de fechar os vidros, pois só há tempo para deixar que o dia termine e que venha logo o outro e tenho visto pouca gente, tenho escutado pouquíssima música e tenho achado pouca ou nenhuma graça nesse estado de deixar o tempo passar grosseiramente em minha vida, e acabo respirando o nada e minhas roseiras brotaram repentinamente e não estava a vê-las, e não tem nenhuma graça nesse arrastar-se pelos dias vãos, porque tenho o trabalho de trabalhar dia a dia, e só tenho comido as porcarias porque são as mais rápidas para se comer e fechei o livro porque a leitura estava arrastada e vazia, ou porque não era o tempo de ler nada, apenas é tempo e hora de vestir-se e levantar-se e deixar que o dia me leve o bom humor de ontem, amanhã é dia de descanso, há no fim de semana algo de metafísico e alguma coisa que não se pode se defender, há nos dias de descanso algo de mórbido, ou de mistério, há que se renovar para os dias que virão, que coisa, que coisa, tudo está porvir.
sábado, 26 de julho de 2014
BICHO-GRILO
papão
de grão
de não
de confusão
adepto ao vão
odeia ladrão
sonhos desvão
palavra versão
de não
senão gestão
queima o brasão
dorme em papelão
esconjura patrão
detona o refrão
demão
de não
de grão
vidão
de grão
de não
de confusão
adepto ao vão
odeia ladrão
sonhos desvão
palavra versão
de não
senão gestão
queima o brasão
dorme em papelão
esconjura patrão
detona o refrão
demão
de não
de grão
vidão
segunda-feira, 21 de julho de 2014
NA DÚVIDA
...mantenha o charme. Vi essa frase há muito tempo, ainda criança, na porta do quarto de minha tia, creio era o Snoopy quem falava, com um sorriso irônico nas fuças caninas. Não sei porque tal imagem veio aflorar em minha mente agora, hoje, e pensando, já que existo, matutei que tenho tantas dúvidas, tantas, que não cabem em verso menos muito em prosa, e nem folha existe para relacioná-las em rol. Mas certo é que tento manter o charme, irônico idem, em todas elas, aliás vivo me requebrando em poses elegantes e nada. Há cheiro de dúvidas no olhar, sou toda uma interrogação e carregada de reticências...
segunda-feira, 14 de julho de 2014
TIPOLOGIA OU ESTUDO DA NATUREZA HUMANA
Amarro meus sapatos. Se os amarro, ainda, curvando-me sobre a barriga que se encolhe e vou até os cadarços para entrelaçá-los por entrededos, sei que ainda manejo minha vida. Ora, então, espanto as pombinhas todas tantas quando sinto o pouso demasiado, assim como bebo do gole amargo e trago a fumaça vazia. Faço da minha mordaça quando necessito grito e julgo a mim o que é fato. Ora, pois, que vem de dar de ombros a vida em minha cara, põe a rir-se estúpida e estragada em dentes esburacados. Respondo à dita com o mesmo rancor, porque já não mostro os dentes á toa. Olho com olho esbugalhado, bem abertão mesmo, longe de ser tapeada, sou estúpida, não pulha, sou pudicícia, graças a deus. E com os peitos derrubo a derrocada, paulada nela, porque brava sempre fui e hei de ser até bem velha e sem dentes também. Pago meus impostos, pago meus pecados e tenho tido todos nesses tempos de carências tamanhas e também pago meus vícios, porque tenho tantos necessários prazeres viciados em vícios, já que os vicio, vicissitudes e pago bem, muito bem. Ora, mais, que por tanto tempo temos esperado que a bosta seque antes mesmo de sujar meus sapatos nela ainda molhada, nesses dias em que há tanta bosta para ser pisada, amarro meus sapatos, estão limpos, bem sei que estão e dou gargalhadas para vida!
sábado, 12 de julho de 2014
Ocaso
O dia amanheceu em instantes, o Sol bateu com raio velho e fraco, pequenos frames do anteontem e as frágeis memórias são latentes, há uma dúvida no ar, sinto o passado agora e ele me aparece mais compreensível que dantes, porém não menos doloroso. Há cheiro de ontem. Queria poder derramar a mesma lágrima chorada, mas já soa tão entendido esse passado que não há verdade em chorar por ele novamente. Enterro hoje e vislumbro um bocado de amanhã.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
DE REPENTE É AQUELA CORRENTE PRA FRENTE
manifesto
intenção
grito greve:
de pipocas
rói a unha esquerda
e palpita o peito
a zaga relaxa
quase
VAI INFELIZ
o coro anuncia
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
de trivela
sai da banheira animal
rói a direita
aahhhhhhhhhhhhh
bebe mais um gole
arfa, arfa
sem firula
sem firula
vaiiiiiiiiiiiiiiiiii
chuta, chuta, chuta
na gaveta
GOLAÇOOOOOOOOOO!
intenção
grito greve:
de pipocas
rói a unha esquerda
e palpita o peito
a zaga relaxa
quase
VAI INFELIZ
o coro anuncia
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
de trivela
sai da banheira animal
rói a direita
aahhhhhhhhhhhhh
bebe mais um gole
arfa, arfa
sem firula
sem firula
vaiiiiiiiiiiiiiiiiii
chuta, chuta, chuta
na gaveta
GOLAÇOOOOOOOOOO!
domingo, 8 de junho de 2014
ROTINEIRA
o café que tomo
não tem o mesmo gosto de ontem
e por que cargas a vida
sempre me parece a mesma?
sábado, 31 de maio de 2014
SAUDOSISMO (Para Enrique)
Escrevo se posso
possuo palavra a ser escrita
que escorre tal qual
lagartixa
o tempo encurtado
obriga o poeta
a escrever o óbvio, o doentio desejo
das paredes sujas de pó
retiro o passado
tenho saudade
da escrita volátil
que fora de mim se estende ao Sol
possuo palavra a ser escrita
que escorre tal qual
lagartixa
o tempo encurtado
obriga o poeta
a escrever o óbvio, o doentio desejo
das paredes sujas de pó
retiro o passado
tenho saudade
da escrita volátil
que fora de mim se estende ao Sol
quarta-feira, 7 de maio de 2014
sábado, 3 de maio de 2014
NASCENTE ( Para mim de mim)
nasci outrora
sem fórceps
quase impulso
me expulsou
ao mundo
chorei porque era necessário ditar o tom da minha voz
assim
sou brava
quase sempre choro
escondido
tenho medo
de todos e de tudo
sou briga
quase sempre arrepio
do incerto e do Sol
sou poesia
e rio porque é necessário ditar o percurso da minha vida
sem fórceps
me expulso
para vida
minha vida
de agora
sem fórceps
quase impulso
me expulsou
ao mundo
chorei porque era necessário ditar o tom da minha voz
assim
sou brava
quase sempre choro
escondido
tenho medo
de todos e de tudo
sou briga
quase sempre arrepio
do incerto e do Sol
sou poesia
e rio porque é necessário ditar o percurso da minha vida
sem fórceps
me expulso
para vida
minha vida
de agora
sexta-feira, 2 de maio de 2014
O AMOR
Você sabe de mim
tanto que conhece
até os segredos
até os prazeres
que me fazem sorrir assim de repente
Você sabe tanto
em mim, cabe tanto
assim
os prazeres
tantos afazeres nos fazem suar
Você tanto em mim
até que dói
até que nunca
assim cabe
tanta saudade em nós
Sou santa sua
Você sabe tanto
os dizeres
que me faz medo assim de repente
o amor da gente
tanto que conhece
até os segredos
até os prazeres
que me fazem sorrir assim de repente
Você sabe tanto
em mim, cabe tanto
assim
os prazeres
tantos afazeres nos fazem suar
Você tanto em mim
até que dói
até que nunca
assim cabe
tanta saudade em nós
Sou santa sua
Você sabe tanto
os dizeres
que me faz medo assim de repente
o amor da gente
Assinar:
Postagens (Atom)
O FLAGRANTE
Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha...
-
sem conseguir escrever alguma coisa de valor poético, metafísico, revolucionário, quântico, sem conseguir escrever algo que te faça se apaix...
-
Mote: Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos. (Saramago em As pequenas memórias) Qual alma não vacila? Oscila.....
-
No final das contas, passamos o dia todo a tentar sublimar as pequenas avarias que a vida nos proporciona. Isso gasta um tempo enorme e ...