sexta-feira, 19 de julho de 2019

QUADRINHA TOLA



Um pássaro bica a flor

Balança a pétala

Jogando o pólen longe

Que brote nova esperança!

FUGIDIO




Se no tempo do seu olhar

Encontro um pouco de amor

Basta-me, esse universo

Paralelo.


VALOR RELATIVO



O que existe de dúvida

Sobre o que sou

Esconde sempre o

Que verdadeira seria

Minha existência

Se não duvidasse tanto dela.


REFERÊNCIAS



Olho para você

Olhe para você

Vejo a mim, vede a ti

Me descubro em nós

O que há de nós em mim?

Inferências...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

CONTRASSENSO


Contra o ésse que

Decapitou o hífen

A contra-senso

Á contragosto

Contrarregra

Contra a regra

Desregrada

Que desgosto

Só nos resta a

Pré-história


POEMA DESTOADO


Maldita sejam as origens,

as regras e toda essa tradição.

As favas com as tradições.

A mesmice do ser assusta.

Caminha-se com o mesmo passo

dos primeiros homens

a darem os primeiros passos eretos,

e esperava-se que assim,

com os olhares paralelos ao futuro,

vissem além de suas oculares.

Ninguém abandona suas origens.

Ao diabo com a bendita essência.

Há que se preservá-la,

quer seja para o bem

ou para mal?

O rio continua a procura do mar.

E o Sol guarda-se para

         a Lua aparecer.

Os sorrisos exagerados são os mesmos

de séculos atrás;

e a flor dada aos buquês continua a ter

o mesmo efeito.

Evolui-se e anda-se ao revés.

Nada é o novo.

As histórias de amor

são as mesmas histórias de amor.

Os filhos não deixam de ser

filhos, apenas o são.

As mortes são mortes.

E a esperança da novidade

        é apenas esperança.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ENTROPIA

Minha existência me incomoda
o que eu penso sobre tudo
o que não posso pensar, o que não devo pensar
tenho medo de existir, tenho medo de morrer
e tenho certeza de que sou inseguro

Ah! Como incomoda minha existência
o que posso pensar e não posso dizer
para quê dizê-lo? por quê? não digo
tenho muito medo de viver, tenho mais medo ainda das coisas
e tenho tantas incertezas quanto mais anos ganho

Que cansada é minha existência
o que o tempo traz agora é tão tarde
tivesse vindo antes a esperteza do velho com a doçura da criança
tenho muito medo de ficar velho, tenho mais medo da criança
e tenho tantas omissões guardadas que não livro

Por que me incomoda a minha existência?
tenho medo de pensar em responder
soubesse dela como a seria teria pensado e dito mais
tenho bastante medo das pessoas, tenho mais ainda de mim
e tenho uma alma de velho na mente de uma criança... todo resto é desordem.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

LACUSTRE

não beba
não beije
não avance

viva à margem
flutue
saia da caixa

sorria
peça licença
seja feliz

ouça
não diga
insista e assista

sorria
exija alforria
calmaria





sábado, 21 de julho de 2018

LAPSO

...nesses tempos de medo, sombrios e incertos, nesses tempos sem um conforto de pensamento, sem um alívio para alma, em todos esses tempos de tremenda angústia e solidão, nesse tempo de desesperanças e descontínuos, num tempo de ignorância e abundância de sentidos e de saberes, esses tempos curtos e átimos, tempos de uma passada larga e longa, tempo esse que corre solto, esses tempos de longa brevidade e eternidade, tempo de conflito e de felicidade, nesse tempo, nesse nosso tempo, esse é o nosso tempo...

terça-feira, 17 de julho de 2018

TAXIDERMIA

Engole toda a serragem
do mundo
o homem-palha 
migalha o ganha-pão
sacoleja no trem
põem a cara no sol
com a forja na mão 
fornalha vento
imensidão
desnutrição
solidão
come toda a poeira do chão
empalha essa vida
para que lembrem mais tarde
do homem-cão

segunda-feira, 18 de junho de 2018

SEMPRE SARAMAGO


RÉQUIEM PARA JOSÉ SARAMAGO

Faz pouco mais de um ano que meu escritor preferido morreu. Lembro-me de que no dia de sua morte, um amigo mandou por celular a seguinte mensagem: “Nosso Saramago morreu!”. Li a mensagem e comecei a chorar. Nunca tinha chorado por alguém assim tão distante de mim enquanto pessoa conhecida, mas chorava pela proximidade que sua obra enquanto escritor havia produzido na minha alma.

Nessa época, de sua partida, eu tinha acabado de ler um de seus últimos escritos A Viagem do Elefante mais do que nunca minha certeza era imensa em reconhecer o senhor de Lanzarote como o meu eterno escriba; suas singelezas, seu paroxismo, sua perplexidade diante das tamanhas injustiças do homem, esse homem cruel e ruim que além de tudo produziu um Deus.

Sim, José era ateu convicto, para ele “Deus é o silêncio do universo e o ser humano, o grito que dá sentido a esse silêncio”.  E prosseguia em mais críticas, adocicadas de ironias ao proferir: “Há quem me negue o direito de falar de Deus, porque nele não creio. E digo que tenho todo o direito do mundo. Quero falar de Deus porque é um problema que afeta toda a humanidade. Não sou implacável com ele, mas com a espécie humana, que inventou o Senhor”.

Mas, não era esse Senhor Saramago, crítico e ranzinza pelo qual me apaixonei por completo. Entreguei-me ao outro José, àquele das ilhas desconhecidas, das intermitências, dos ensaios, dos homens duplicados, enfim das pequenas memórias. Certa vez perguntaram-me, estupidamente, e claro nem me lembro de quem era a pergunta infeliz, como que uma professora de Língua Portuguesa gostava de um escritor que não usava corretamente as pontuações, respondi: Leia Saramago e depois nós conversamos sobre isso, às favas com as pontuações!

A minha profunda tristeza gira obviamente em torno de sua morte sim, porém muito mais, refere-se a minha impossibilidade de nunca poder ler aquilo que José Saramago não teve tempo de escrever. Vou ler novamente cada linha dos antigos, como se fossem novos e inéditos para mim, quem sabe minha saudade por ele diminui... “Não é ilusão do escritor que, ao concluir sua leitura, alguém alce voo e continue a expandir a constelação que viu impressa.”

sexta-feira, 15 de junho de 2018

QUINHÃO




Visita ao Centro de São Paulo. Hoje. Catedral da Sé, linda, exuberante, mas não serve para nada.
Ao redor, os desgraçados, mutilados, os sem-chance-de-merda-alguma, os famintos, os descamisados.
Olhei.
Olhamos.
Acendi um cigarro.
Acendeu o cachimbo.
A policía pass(e)ava por todos os lados, os caras olhavam o vazio, naquele passo a passo peculiar da lei. Qual?
Baforei, baforamos.
E ali deitado, junto ao pé de uma árvore, ali mesmo, perto do marco zero da nossa cidade, defronte a catedral da fé, o homem fedido, dividia a coberta com seu cão, enrolados em um só. Amor. Tem.
Senti. Sentimos.
Na volta, o molequinho sem-porra-nenhuma-de-sorte, enfrentava o destino, desprevinido, coitado, sem nehuma, mas nenhuma chance de ser feliz!
Restava-me escrever.
Escrevi.

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...