terça-feira, 21 de janeiro de 2025

TRIPALIUM

 

Imobilizada

Ainda trabalho

Muda a regra

Ainda trabalho

Paga pedágio

Ainda trabalho

Deixo o vislumbre

Ainda trabalho

É o fim

Sem atalho

Que nada...

Mais uns anos de tortura

Sem atalho

É o fim

Ainda trabalho

Deixo o vislumbre

Ainda trabalho

Paga pedágio

Ainda trabalho

Muda a regra

Ainda trabalho

Imobilizada

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

CRÔNICA EXTEMPORÂNEA

É possível parcelar as mágoas em suaves prestações? De preferência sem juros, porque ninguém merece juros disto. Já tive que inutilizar minhas ações, então, por que tenho que ainda pagar por isso tudo? Por favor, parcele. Parcele essa dívida comigo mesmo, para que eu possa entender tamanho boicote social, para que eu possa compreender o motivo pelo qual as pessoas te excluem, se excluem, me excluem. Fui um mau garoto? Somos boas garotas? A quem os olhos viram ações errôneas?  Minhas opiniões problemáticas te tiraram da zona de conforto, ou me colocaram na cova? Meu comportamento foi inadequado ou você se viu no espelho?

É possível parcelar as mágoas em pequenas prestações? Por favor, parcele minha angústia em prestações para vida toda, para que eu tenha tempo de pagar essa dívida moral comigo mesmo; para que eu possa acertar esse déficit a longo prazo e perdoar a minha inadimplência com esse ser humano que é desprezível, que faz julgar e sofrer tão facilmente. Por acaso todo esse descaso se deve ao fato de que não é possível aceitar o que outro diz? Tem coisa que é inafiançável: a fome é inafiançável, a morte, a pobreza. Não cabe aceitação. Você por acaso já sentiu alguma coisa dessas? Se sim, então, parcele, por gentileza.

Não.

É possível providenciar o cancelamento das minhas mágoas? É que o comprador se enganou na compra, o produto veio com atraso e foi entregue em desacordo com o anunciado. Cancele, por gentileza!

 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

PREMISSA

No vagão do trem lotado, 

dois olhares se cruzam. 

Dos olhares ali de todos, 

esses, 

eram os únicos 

que se dispunham ao amor.





domingo, 5 de janeiro de 2025

PRIMEIRO DE ABRIL

 

Era para ser um texto qualquer, um poema, algo que mostrasse a que veio. O texto escrito inaugural, o introito anual. O primeiro do ano, o primogênito, aquele que abre-alas para o restante vir, não importa em que condições. Tudo que começa tem que ser único, ohhhhhhhhh, porque se espera isso do começo, do empeço, porque se quer isso dos inícios; era para ser original, isso original, algo nunca visto, algo nunca escrito. Não veio. Passei os dias tentando escrever o poema, a crônica inicial, o haicai do ano matemático de 2025, o romance que nunca existirá. Ninguém veio. Nem a inspiração, nem a ideia, nem a chuva americanizada de brainstorming, nem uma palavra sequer. Nada.

Assim como na vida, nada é o original, assim, por aqui também não tem como ser.

domingo, 29 de dezembro de 2024

CRÔNICA DO GESTO

 

O homem levanta os braços para o alto, com as mãos espalmadas, trêmulas e pede “calma”. A massa de trabalhadores ruidosa e raivosa, olha para ele. O burburinho continua de uma ponta a outra; no grupo de pessoas, umas insatisfeitas e outras esperançosas, a falação é intensa. Ele grita novamente pedindo muita calma, olho no olho, o homem sabe que precisa controlar a situação; ele faz silêncio e olha novamente no olho de cada trabalhador que veio até o sindicato para ouvi-lo.... Silêncio... agora o homem pode falar!

Na volta do trabalho a faxineira, cansada da labuta de limpar, de secar o gelo diário, se depara com a sacola que se mexia num barulho de choro. Sem hesitar, porque o pobre não tem tempo para isso, abre e vê a ninhada de pequenos cachorros abandonados. Não sendo mulher de abandonar ninguém, a senhora sai pela comunidade tentando achar novos donos, pois ela já tem os seus vários bichos e pensa por um rápido momento “que essa gente é ruim demais”.

O rapaz vem pensando que sua namorada estava muito triste, triste mesmo de dar dó; sem conseguir mais uma vez entrar na tão sonhada faculdade, ela teria mais um ano inteiro pela frente. Sem saber o que dizer, o sofrimento dele no vagão do metrô também era de dar pena. “O que vou dizer para ela”, repetidamente ele divagava. Uma menina para do lado dele e diz para ele comprar um brigadeiro, “compra, por favor”, ela insiste que o brigadeiro que ela faz, traz muita alegria para quem come. O rapaz compra os brigadeiros, ele entrega o brigadeiro para sua namorada, e o dia segue mais feliz.

A escritora pensa em como pode escrever sobre os pequenos gestos humanos, aqueles que nos trazem acalanto ou destruição, afáveis ou ignóbeis. Lembrou de como cada gesto, acompanhado ou não de palavra, de ação, modifica a história toda, numa avalanche sem volta. A mulher lembrou do livro que havia ganhado quando ainda criança. Exatos seis anos; ganhou o livro com dedicatória linda, mas lembrou que esse gesto ficara lá traz, junto com a criança que ainda não entendia nada de gestos largos e lindos, porque só pensava em crescer. 

A História dos Nossos Gestos, por Cascudo: “Os Gestos são moedinhas de circulação indispensável e diária, mas ignoramos sua emissão no Tempo.  A crônica, segue para o amigo Mendes.

 

 

 

 

sábado, 28 de dezembro de 2024

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

POEMA DO VAZIO

 

QUERIA PODER ESCREVER

ALGO QUE TE TROUXESSE DE VOLTA

COMO UMA ESPÉCIE DE ACALANTO

QUERIA PODER DIZER: PRUUUUU

 

QUERIA PODER ENTENDER

ESSE VAZIO QUE SINTO AGORA

QUEM SABE COMO O MEU PRANTO

ARREBENTA OS MUROS DO INFINITO

 

AS TANTAS FITAS DA SAUDADE

ESTÃO EM MIM

 

QUERIA MUITO UM POEMA

QUE TE ACHASSE POR AÍ, PERDIDA

COMO UMA ESPÉCIE DE SOPRO: PRUUUU

E TE FIZESSE PULAR DE NOVO

 

AS IMENSAS FITAS DA SAUDADE

FICARÃO EM MIM

 

QUERIA DEMAIS UM SONHO

QUERIA TANTO PODER ESCREVER

QUERIA MUITO UM POEMA, MIU ...

 

AS TANTAS, AS IMENSAS, AS COLORIDAS FITAS

TE LEVARAM PRO CÉU

EM MIM, O VAZIO.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

CRÔNICA TÃO PEQUENA QUE DÁ DÓ

                 Ia começar esta crônica com o título de "croniquinha" e lembrei na mesma hora que odeio diminutivos. E sem pestanejar, tentei puxar na minha memória o motivo pelo qual eu odiava palavras no diminutivo, porque bem sabemos que odiar, é algo muito forte, talvez eu não goste muito de usar. E nessas indas e vindas de pensamentos, parei de pensar neste motivo primeiro, para pensar que sempre tenho sentimentos muito fortes. Tudo em mim transita na esfera do exagero e da oposição, amo demais, odeio demais, trabalho muito ou procastino muito, escrevo exageradamente ou passo meses sem escrever, e por aí vai... E, ainda pensativa, nas coisas, matutei em qual seria o motivo de eu ser exagerada, e também lembrei que sou demasiadamente ansiosa, e não tenho equilíbrio algum e por aí vai também..., e quando dei por mim, a "croniquinha", aquela singela, pensada em ser escrita para hoje, aquela de dar dó, de desanuviar meus pensamentos, minhas angústias e meus cansaços. 

Basta. 

               Numa manhã que não vem ao caso, a moça pensou que seu destino era conhecer alguém que lhe afagasse o coração. Ficar sozinha não era mais uma opção, chega um momento da vida que precisamos cuidar de alguém, é quase que instintivo, necessário mesmo. Assim, ela titubeou, porém, estava certa do ofício. Chegou ao lugar na hora combinada; o rapaz a recebeu com um enorme sorriso e perguntou se ela estava nervosa, e que era assim mesmo, que as pessoas ficavam desse jeito igual ao dela quando faziam isso, mas que a decisão dela era algo lindo de se ver "falta gentileza no mundo". Abriu a porta com cuidado. A moça parada na entrada da porta se esquivou, virou, deu meia volta, virou de novo. Olhou. "Posso abrir a portinhola?" Ela sorriu nervosamente. O rapaz abriu a portinhola e de lá vários gatinhos saíram. A moça riu, nervosa, sem se mexer, ali ficou. Dos vários, teve um que era o seu amor, é sempre assim. O gatinho rajado de laranja e branco deitou no seu pé. Olhou para moça e miou como quem diz "me leva". "Esse gostou de você", o rapaz pegou na mão o gato minúsculo e entregou para ela que ajeitou no colo o pequeno felino. A moça sorriu... o gato sorriu... 

 

Em tempo...talvez eu não goste de diminuir as coisas, falta muita gentileza nesse mundo.

domingo, 6 de outubro de 2024

SÓ PARA CONSTAR

Entrego o papel

nele minha foto, 

revela

minha identidade;


Entrego o outro papel

nele a zona, ela me olha

compara 

com foto do papel;


Envelheci

ela olha de novo,

confirma

eu vou, confirmo...


E nessa entrega envelhecemos na esperança.



terça-feira, 1 de outubro de 2024

quinta-feira, 18 de julho de 2024

CRÔNICA DA PRAIA

Estamos sós, porém estamos juntos.

As inseguranças são sempre familiares e em cada história, de cada pessoa, os temas são distintos, mas as dores, as dores, são geralmente parecidas. Chove fraco aqui na praia, e também o mar é agitado. Das histórias dos transeuntes que caminham pela areia suja da praia, que um dia foi limpa, esses humanos que caminham, em meio as pombas, as gaivotas que passeiam com suas pernas lindamente longas e finas, isso tudo junto, eu observo e penso, somos sós, somos juntos e caminhamos.

Assim, parada em frente à barraca de bugigangas uma vendedora me seguia, em cada coisa que eu pegava, e olhava, e vacilava, e recolocava, percebi depois, que ela ia ao lugar que eu havia tirado aquilo, visto e não comprado, a moça "rearrumava", do jeito certo, o dela. O jeito certo. Na vida temos que ter o jeito certo. O seu jeito certo, não é o meu jeito certo que também não é o dele. E assim, estamos sós e somos juntos.  Na última vista, “vou levar este”, a moça sorriu, e deve ter pensado que finalmente, depois do passeio pela loja a fulana compraria algo.

O mar é agitado, tem uma certa névoa e o dia está cinza. Para Camões, o dia deu em chuvoso. E depois de caminhar até a praia agora suja, que um dia foi limpa, ouvi o senhor da outra loja que estava me observando e pensando que eu não era dali, era uma forasteira, avisou “cuidado com o carro”, eu distraidamente, não havia visto,  pensei que ele poderia não ter dito nada, e fiquei pensando como seria a vida dele,  quando olhei, vi que ele estava sentado com uma senhora ao lado, que deveria ser a sua esposa ou não, e eu agradeci fraco, um obrigado como a chuva fina. Estamos sós, mas estamos juntos, vemos o outro, somos juntos e caminhamos.

Sentada em frente ao mar revolto, vi a garota corajosa que entrava onda a onda, com a água pelo joelho. Ela ia e voltava, sozinha, nem olhava para ver se estavam vendo como era um disparate o que ela fazia. Um dia frio, o mar bravo, a névoa quase garoa, e a garota-coragem ali, porque não era justo no seu único dia de praia, não ter vindo Sol. Talvez, ela pensasse isto, e eu digo isso, porque eu pensei nisso, nos reveses que a vida dá, não é justo, não é justo. Estamos tão sós, nos sentimos tão sós, contudo juntos, sobrevivemos.

E então, cada história de injustiça, de incompreensão, de divergência, percebo que no final de tudo isso, de todas as coisas, a moça da loja, o velho e sua sei lá esposa, as pombas, as gaivotas, a menina coragem, eu, você, eles; todos nós estamos aqui, com nossas histórias e casos,dores, manias, opiniões, pensativos, juntos, esperando o Sol.

  

sábado, 1 de junho de 2024

Duodécuplo

Aposto que são 

Dize, dize,  doze 

Faces da mesma

Moeda. 


Aposto que são 

Dize, dize, doze 

Ovos do pão de ló 

Apostólico


Aposto que são 

Dize, dize, doze 

Constelações do 

Zodíaco.


Cavaleiros,    

De Faces cobertas, vendo estrelas...

Um aposto!



POEMA ATEMPORAL

    As coisas não residem no tempo Se costuram a ele, em pedaços de trapos de memórias Que antanho, vão se aparecendo Descaradamente...