Num dia frio
Olhando para a lembrança
Que se descongelou
Estamos sós, porém estamos juntos.
As inseguranças são sempre familiares e em cada história, de cada pessoa, os temas são distintos, mas as dores, as dores, são geralmente parecidas. Chove fraco aqui na praia, e também o mar é agitado. Das histórias dos transeuntes que caminham pela areia suja da praia, que um dia foi limpa, esses humanos que caminham, em meio as pombas, as gaivotas que passeiam com suas pernas lindamente longas e finas, isso tudo junto, eu observo e penso, somos sós, somos juntos e caminhamos.
Assim, parada em frente à barraca de bugigangas uma vendedora me seguia, em cada coisa que eu pegava, e olhava, e vacilava, e recolocava, percebi depois, que ela ia ao lugar que eu havia tirado aquilo, visto e não comprado, a moça "rearrumava", do jeito certo, o dela. O jeito certo. Na vida temos que ter o jeito certo. O seu jeito certo, não é o meu jeito certo que também não é o dele. E assim, estamos sós e somos juntos. Na última vista, “vou levar este”, a moça sorriu, e deve ter pensado que finalmente, depois do passeio pela loja a fulana compraria algo.
O mar é agitado, tem uma certa névoa e o dia está cinza. Para Camões, o dia deu em chuvoso. E depois de caminhar até a praia agora suja, que um dia foi limpa, ouvi o senhor da outra loja que estava me observando e pensando que eu não era dali, era uma forasteira, avisou “cuidado com o carro”, eu distraidamente, não havia visto, pensei que ele poderia não ter dito nada, e fiquei pensando como seria a vida dele, quando olhei, vi que ele estava sentado com uma senhora ao lado, que deveria ser a sua esposa ou não, e eu agradeci fraco, um obrigado como a chuva fina. Estamos sós, mas estamos juntos, vemos o outro, somos juntos e caminhamos.
Sentada em frente ao mar revolto, vi a garota corajosa que entrava onda a onda, com a água pelo joelho. Ela ia e voltava, sozinha, nem olhava para ver se estavam vendo como era um disparate o que ela fazia. Um dia frio, o mar bravo, a névoa quase garoa, e a garota-coragem ali, porque não era justo no seu único dia de praia, não ter vindo Sol. Talvez, ela pensasse isto, e eu digo isso, porque eu pensei nisso, nos reveses que a vida dá, não é justo, não é justo. Estamos tão sós, nos sentimos tão sós, contudo juntos, sobrevivemos.
E então, cada história de injustiça, de incompreensão, de divergência, percebo que no final de tudo isso, de todas as coisas, a moça da loja, o velho e sua sei lá esposa, as pombas, as gaivotas, a menina coragem, eu, você, eles; todos nós estamos aqui, com nossas histórias e casos,dores, manias, opiniões, pensativos, juntos, esperando o Sol.
Aposto que são
Dize, dize, doze
Faces da mesma
Moeda.
Aposto que são
Dize, dize, doze
Ovos do pão de ló
Apostólico
Aposto que são
Dize, dize, doze
Constelações do
Zodíaco.
Cavaleiros,
De Faces cobertas, vendo estrelas...
Um aposto!
Ontem meu sonho foi-se amanhã
Alguém vem e me olha aturdido
Somente rancor profunda gadanha
Profundo amargor do ser iludido.
Se a tristeza soubesse meu nome
Saberia como peito dói ora range
Como nem o luar é meu cognome
Finda rancor e nem som mais tange.
Essa magia dantes tão apensa
Agora morta sofre mor intensa
Mutilado meu enigma é fustigo.
Os feitiços padecem esperando
Os olhos compassam lembrando
Que a vida trouxe-me como castigo.
Se o dia abre em magia
fico bem triste em pensar
que o labor, qual o sentia
era difícil de se expressar.
Quanto mais há feitiçaria
mor penso em meu pesar,
meu sonhar é melancolia
como conseguir
ancorar?
Místico suave, um lampejo
Compêndio incauto, não vejo...
mistério a mim distante.
O brilho do olho, adiante
sutil e metódico instante
talismã em mim, desejo.
AXIOMA AMOROSO
Entender o outro
É respeito
Aceitar o outro: amor.
AXIOMA REVOLTO
Ahhhhhhhhh! Ignorância
É a matriz da aceitação
E a cegueira da escolha
Ah! Quanta vontade de dizer
Tantas doces e suaves ironias
Proclamar em frases entrecortadas
Quanto á vida se torna vazia
Diminutas palavras deslizam da boca voraz
Ora dizem, ora dizem, ora dizem
Quem não as sente na cara, o vento
Natureza desumana, tocante
Tal qual cochonilhas em rosas
Uma foto
um número
outro número
uma mãe
sem pai
não declarado
assinado
com dedo
de tinta.
Agora é cidadão para valer!
ASSIM COMO O VENTO
BEM AGITADO ESTAVA
A FLOR SE DESGARRROU
E BEM LEVE E SOLTA
PULANDO PELO CÉU
COM AS PÉTALAS CÁ
E BAILANDO PARA LÁ
A PEQUENA MARGARIDA
FOI VOANDO COM A
VENTANIA QUANDO ASSIM,
DE SUPETÃO, PLIM, PLIM
CAIU NA CABEÇA AVOADA
DA PEQUENA GAROTA
QUE SORRIU COM AQUELE
PRESENTE VINDO DO CÉU
Faz silêncio e olha, ali
pelo buraco da vida. Vê como as pessoas andam se acotovelando, querendo um
tanto de atenção daquela outra que é bem querida sabe-se lá por quê? Está na
berlinda, meu amigo? Que você faz com essa sua opinião imensa? Trate bem todas
elas, as pessoas, e ficarão por ali, na estante da sua vida! Onde é que estão
seus amigos? Ou você é um ser social que amontoa amigos do tipo meus amigos?
Olha agora ali do lado esquerdo, vê aquele outro grupo? Está vendo como são amistosos
e omissos? São tão tradicionais na vida, são tão solitários como aqueles que
riem sem parar e que olham de vez em quando pelo buraco de suas vidas rasgadas
e solitárias. Vê como se socializam? Agora escuta o que dizem. Tem bastante
opinião nisso tudo. Isso é bom, mostra que são humanos. Que pensam. Será que
sentem? Ou mentem? Faz silêncio, senão acordam!
sem conseguir escrever alguma coisa de valor poético, metafísico, revolucionário, quântico, sem conseguir escrever algo que te faça se apaixonar ou que te faça sorrir, sem conseguir pensar em escrever um conto qualquer, ou uma crônica da esperança que te faça não se matar hoje, sem conseguir escrever sobre a paz mundial, sobre como as coisas são horrendas, e também sem conseguir ser otimista e feliz, sem conseguir o poeta, escrever um verso minúsculo sequer, versículo, sem conseguir um mote...qualquer...
Rendo-me.
Quero agradecer minha vida.
Sim, ela é carregada de vícios e prazeres,
de saúdes e possibilidades, "vidazarrona",
é emocionalmente intensa e macia,
tenra e macia.
Tem horas que não agradeço, por empréstimo, zero horas, aquela hora da tristeza, essa não agradeço não, mas é um...
Vidão.
Vida com tudo quanto é vida boa tem que ter,
com poesia,
com música,
com gente boa
gente fina, elegante e discreta
com arte,
com comida, acepipes variados e bebedeiras
com prazer,
amor e
“all inclusive”.
“Vou refletir muito sobre algumas coisas nos próximos tempos. Sobre a
vaidade, e o sofrimento que esse sentimento nos traz, e sobre o amor-próprio
também. Se estou percebendo que querem apagar o passado, e avalio que de fato o
passado não é de meu domínio, por que sofrer com isso? O mundo humano está
assim.” (Wiliam Mendes)
A vaidade e o amor-próprio discutiam fervorosamente
na cabeça do homem, para ver quem era o mais importante na vida do pobre rapaz.
De fato, não era uma discussão, ou diálogo, porque na verdade, a vaidade falava
muito mais que o amor-próprio, que num determinado momento passou a só ouvi-la
e respondia apenas o necessário:
-
Acha que vou aceitar esse argumento de que você veio do inglês “self-love” e de
que, portanto, é mais importante do que eu? Também quer que eu acredite nesta
história de Narciso, e que me joguem na cara que não olho para mais nada além
da minha própria beleza? Balela!!!
- Não
foi isso que eu disse. Disse que você tenta me sobrepujar, todas às
vezes que tento deixar ele um pouco mais seguro de si mesmo.
-
Ahhhhhhh. Faz-me rir “self-love”. Então eu, a rainha da valorização pessoal,
aquela que tem os maiores desejos fundamentados nas qualidades físicas e
intelectuais do nosso Mestre, hahahahaha, euzinha, quero passar a perna em
você? Somente quero que os outros avaliem, apreciem as capacidades e qualidades
dele. E você? O que faz? Você o confunde. Todas às vezes que você exagera, é
confundido comigo. Entendeu?
- Quero
só que ele tenha segurança do que diz e faz.
-
Segurança? Você é mesmo muito passional. Isso é um grande paradoxo. Então você
está dizendo, que esse seu cuidado é amor? Ah! O amor-próprio, cuidadosamente
dosado, aliás, em doses homeopáticas, traz a segurança de que nosso Mestre
necessita? Bobagem. Você me vê como um mal? Imagino que sim. Hahahaha. Se me
olha como um mal, que seja o Mal de Epicuro que o impede de ser “omnitudo”! Ora
essa! Dessa forma, você, meu amor, é desnecessário. Eu, sim, a vaidade, sou absolutamente
importante e vital, porque faço com que ele se valorize, se vanglorie de suas
conquistas e que seja reconhecido pelos outros mortais.
-
Talvez tenha razão. Mas... Poderíamos coexistir?
-Nunca!
Chega de me confundirem com falha moral, com presunção, com egoísmo, e maldade,
chega! Chega dessa história de me confundirem com você. Sou lúcida! Você não é.
Sou consciente e necessária. Um pouco de mim basta.
Naquela noite o homem não conseguia dormir, seus
pensamentos oscilavam e refletiam sobre a vaidade, e o sofrimento que esse
sentimento lhe causava; pensava em suas conquistas e também avaliava se o seu
passado deveria ainda estar sob o seu domínio ou não; para quê?
E... Não chegando em conclusão alguma, sorriu, percebeu
o adiantado da noite e matutou que de nada adiantava pensar tanto e sofrer
sobre tudo isso. O mundo humano já está assim, muito sofrido, calejado, cheio
de preguiça e com muito sono.
Bastos
era um senhor de sessenta e poucos anos que vivia sozinho em um pequeno
apartamento do centro da cidade de São Paulo. O único filho morava em outro
país e falavam-se poucas vezes durante o ano. Alguns parentes no interior, que
a ausência de contato havia guardado na última gaveta da memória qualquer
possibilidade de reencontros. Da sua rotina diária, além dos pequenos afazeres
de limpeza, manutenção da sua sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba,
alimentar os pássaros, sobrava-lhe uma enorme parte do dia para nada fazer.
Bastos
era homem comedido, falava pouco e durante toda a vida mediu bem aquilo que lhe
saía da boca; entre falar e dar sua opinião preferia calar-se; o que fez com
que escutasse a vida toda que era um pau mandado, um nada, um livro sem
receitas, um homem vazio... Nunca se importou com isso, não falava porque não
valia a pena dizer, somente o que era certo, era dito: “três pães, por favor,”,
não importava dizer algo sobre a coloração dos pães, “nossa, como estão tostados”,
já estavam tostados, de que valeria dizê-lo.
Mas...se olhou no espelho.
O
homem olhava assustado para a imagem do espelho, não pelo corte feito, que era
pequeno demais para alguém dar-lhe algum valor, mas seu estupefato olhar era da
frase que sua boca havia proferido; não era homem de dizer vilezas, não era
homem de falar mal por pouco, nem por muito havia perdido sua linha; nada disso
era o que lhe tinha causado o pavor, a voz que lhe saíra da boca não parecia
ser sua, aterrorizado não sabia o que fazer, baixou os olhos para tirá-los do
espelho e sussurrou baixinho o seu nome, queria escutar-se.
Se a voz dominara o homem ou se ambos haviam se fundido em um só não é coisa para se pensar nesse momento da narrativa porque nada de filosófico há na mudança e o que se é relevante dizer são os fatos, os fios condutores das ações; o caso é que o senhor Bastos estava mudado e nem mesmo sabia onde tudo isso tinha começado, acostumara-se com a nova maneira que a vida lhe impusera com a mesma brandura que se habituara á barbas; agora era ser que cuspia fogo, deixava marca por onde passasse, rasgava todos os verbos, espantava os bichos, encantava e desencantava.
Bastos
era um senhor que vivia sozinho em um pequeno apartamento do centro da cidade
de São Paulo. O único filho morava em outro país e falavam-se várias vezes
durante o ano. Alguns parentes no interior visitavam sempre o homem, que recebia
todos calorosamente em longos papos e risadas madrugada a fora, resgatando
sempre o que havia guardado na primeira gaveta da memória: lembranças. Da sua
rotina diária, além dos pequenos afazeres de limpeza, manutenção da sua
sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba, alimentar os pássaros,
sobrava-lhe uma enorme parte do dia para conversar, cantar, aconselhar, jogar
conversa fora, discutir...
Mira la
perseverancia y
com el
passo del tiempo
firme em
la constancia,
en la
base de la obstinación.
Mira,
para que tengas siempre
las
delicadezas...
Cambia
frenéticamente su
vida
estampida y puesta
al
principio del acaso
para que
tengas siempre
las
delicadezas...
que sin duda se traducirá
en palabras y acciones.
Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha...