domingo, 9 de agosto de 2015

UM CONTO QUALQUER

Bastos era um senhor de sessenta e poucos anos que vivia sozinho em um pequeno apartamento do centro da cidade de São Paulo. O único filho morava em outro país e falavam-se poucas vezes durante o ano. Alguns parentes no interior, que a ausência de contato havia guardado na última gaveta da memória qualquer possibilidade de reencontros. Da sua rotina diária, além dos pequenos afazeres de limpeza, manutenção da sua sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba, alimentar os pássaros, sobrava-lhe uma enorme parte do dia para nada fazer.
Bastos era homem comedido, falava pouco e durante toda a vida mediu bem aquilo que lhe saía da boca; entre falar e dar sua opinião preferia calar-se; o que fez com que escutasse a vida toda que era um pau mandado, um nada, um livro sem receitas, um homem vazio... Nunca se importou com isso, não falava porque não valia a pena dizer, somente o que era certo era dito “três pães, por favor,”, não importava dizer algo sobre a coloração dos pães, “nossa, como estão tostados”, já estavam tostados, de que valeria dizê-lo.
Naquela manhã aparava a barba como o costume lhe mandara fazer, com a pequena tesourinha em punho, tirava pequenas lascas dos pelos grisalhos, que caiam sobre o pano metodicamente aberto na pia. Olhava para o seu rosto envelhecido e pensava no transcorrer da sua vida. Não era homem de se revoltar, sua alma era a mãe da resignação, aceitava as coisas, as pessoas, a vida, como aceitava o dia virar noite; os fios ora brancos ora pretos salpicavam o lenço branco junto com uma pequena gota de sangue “que merda!”.
O homem olhava assustado para a imagem do espelho, não pelo corte feito, que era pequeno demais para alguém dar-lhe algum valor, mas seu estupefato olhar era da frase que sua boca havia proferido; não era homem de dizer vilezas, não era homem de falar mal por pouco, nem por muito havia perdido sua linha; nada disso era o que lhe tinha causado o pavor, a voz que lhe saíra da boca não parecia ser sua, aterrorizado não sabia o que fazer, baixou os olhos para tirá-los do espelho e sussurrou baixinho o seu nome, queria escutar-se.
A confirmação do dia anterior veio na hora em que Bastos pediu os três pães e queria os mais brancos porque estava cansado de pães tostados e com gosto de queimados; sua voz agressivamente pedia ao rapaz do balcão que estranhou o pedido, mas agiu como a fala proferida lhe ordenara. Bastos tentou desculpar-se, porém o que lhe saiu pela boca foi que nunca mais haveria de lhe empurrar pães de quinta categoria. Resolveu não mais dizer nada, haveria de fazer-se calar, pegou o saco, pagou e correu para casa, assustado como se estivesse preso em alguém que não era ele.
Em casa defronte ao espelho mirava-se com estranheza e pavor; “está olhando o quê?”, a frase que ele mesmo dissera, fizera-lhe rir a gargalhada mais histericamente possível, só pensava que estaria louco, não tinha coragem de dar nem mais um pio; passou o dia sentado na beirada da cama numa mudez sobre-humana quando se assustou com o tocar estridente do telefone, correu a pegar o fone, mas titubeou, afastou-se, retornou, atendeu; “ah, é você seu ingrato, não telefona há tempo deve precisar de algo, desembucha logo que tenho mais o que fazer!”.
Como diria o ditado: a boca fala e... ele quem paga; ficou Bastos a ouvir o sinal intermitente da ligação interrompida. Passou sua voz então a praguejar as mais absurdas frases, resmungava,contava, lembrava, cantava, assobiava, discursava, orava, discutia, papeava e dialogava consigo mesmo. “Eu penso, eu opino, digo, juro, minto e menciono”. Estava em um estado absolutamente esfuziante, como se sua garganta, ora dantes travada, tivesse desatarraxado num mar de arquixilemas e arquifonemas.
Se a voz dominara o homem ou se ambos haviam se fundido em um só não é coisa para se pensar nesse momento da narrativa porque nada de filosófico há na mudança e o que se é relevante dizer são os fatos, os fios condutores das ações; o caso é que o senhor Bastos estava mudado e nem mesmo sabia onde tudo isso tinha começado, acostumara-se com a nova maneira que a vida lhe impusera com a mesma brandura que se habituara a barbas; agora era ser que cuspia fogo, deixava marca por onde passasse, rasgava todos os verbos, espantava os bichos, encantava e desencantava.
Bastos era um senhor que vivia sozinho em um pequeno apartamento do centro da cidade de São Paulo. O único filho morava em outro país e falavam-se várias vezes durante o ano. Alguns parentes no interior visitavam sempre o homem, que recebia todos calorosamente em longos papos e risadas madrugada a fora, resgatando sempre o que havia guardado na primeira gaveta da memória: lembranças. Da sua rotina diária, além dos pequenos afazeres de limpeza, manutenção da sua sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba, alimentar os pássaros, sobrava-lhe uma enorme parte do dia para conversar, cantar, aconselhar, jogar conversa fora, discutir...


domingo, 2 de agosto de 2015

sábado, 1 de agosto de 2015

NORMATIVAS

para entender a vida
há que se entender da
gramática
se a oração for condicional
use como resposta
uma adversativa
só assim é possível
justificar as atitudes
que não sabemos
os porquês

sexta-feira, 31 de julho de 2015

MINHA AMIGA ( Para Iraci Barbosa)


Minha amiga
Guardo o café
E a saudade
Para nosso encontro
Antes de almas
Do que das carnes.
Nele, falaremos
Das periferias
Da vida, pois dos
Nossos fardos
Não será a hora
Nem o lugar.
Já que em nosso
Reencontro
Brindaremos, e
Apenas iremos
Rir, das costuras
De nossas vidas,
Dos retalhos dos
Nossos sonhos.
Cara amiga...
Guardo a saudade
E espero você com

O café no fogo!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

VALSINHA

Em outra época era sua
pena que não sabíamos
e a lembrança fez-se no
hoje, qual não mais nos
pertencemos.

E quando nos vemos no
agora, sem saber o quê,
a sensação de querer a
amorosidade ora ontem,
é primazia.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A CULPA É DA ESTRELA!

O que me confere o direito de falar e escrever sobre futebol é só um: adoro. Para falar sobre algo é preciso antes de tudo gostar. Gosto e assisto todo e qualquer jogo de futebol. Quando criança assistia Desafio ao Galo, em campo de terra, bem melhor que hoje, os caras ralavam a camisa. Então, se eu entendo de futebol? Talvez. Não há muitos pressupostos para esse tema, há antes a história, essa eu sei de alguma coisa, mas sobretudo há em mim desejo de escrever. Depois de tantos vexames da nossa seleção de futebol não consigo ficar calada. Fico bem quieta quando meu time perde, e também fico calada quando ganha porque sei o que é ter paixão por um time. Entretanto quando vejo o que se tornou nossa seleção brasileira de futebol fico engasgada. De quem é a culpa? Da estrela? Também é. Quem viu o garoto na escolinha de base do Santos e quem o vê hoje, sabe que já não são a mesma pessoa. Porém, minha tese é: Cadê o meio de campo? Não há mais meios-campistas. Onde estão Didi, Falcão, Rivaldo, e até porque não dizer do Platini e Bobby Charlton, e devo ter esquecido de outros, mas esses são mais relevantes para mim.  Consideradas estrelas de grandeza menor, os meio-campistas são o que eu chamo d'alma do time, são eles os responsáveis pela ligação defesa-ataque, sem eles acontece o que temos visto no futebol atual do Brasil, nenhuma conversa. Zagueiros achando que são atacantes, goleiros tendo que fazer gol, e centro-avante achando que é a estrela de grandeza maior responsável por toda uma nação. Infelizmente uma tragédia!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

PRIMEIRO

Vi e olhei
não olhei
falhei
a arte do primeiro encontro
é um erro
que traz no desassossego
o engano
gosto do que
não conheço, amanheço
em dúvidas
permaneço...

quinta-feira, 11 de junho de 2015

EU SEI E VOCÊ, SABE?

Eu bem sei que nada é fácil
e que lá dentro cabem todas
as angústias do mundo e ainda
todo o cansaço da vida e do dia e da noite
e sei também que há para sempre
uma frase adversativa que diz
mas...
Eu sei que você está lendo e
certamente enquanto lê, lembra
de tudo e todas as coisas que agora
enchem seus pensamentos de outro
tanto de cansaços e dúvidas e afins, do dia e noite
e sei que eu e você, estamos assim
no meio-fim de nossas vidas
porém...
Eu sei e você, sabe?
Que há alguém ali, ou aqui, ou aí
que lhe sorri, lhe afaga, lhe sente, sim
e inafiançáveis lembram e lhe tocam o rosto
e lhe fecham num abraço doce e arrastado, do dia e da noite
porque há nelas entretanto amor?

sexta-feira, 29 de maio de 2015

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O TÉDIO E O ASSÉDIO

O assédio perguntou
ao tédio: o que vai ser hoje?

E depois de tanta esparrela
o tédio, sem muita hora
respondeu: tem remédio para tramela?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O JARDIM DE GILDA


A mulher cavouca a terra, já adubada pelo melhor resto de coisas que há, com as mãos e unhas que agora já trazem a escuridão fértil, impregnadas. Nesse mesmo instante ela conversa com as pequeninas rosas coloridas que demoravam a nascer, perguntando às mesmas se não tinham inveja das roseiras já adultas. Nisso tudo reside um bocado de poesia, porque em Gilda e em seu jardim cabem muito mais que flores e frutos. Nisso existe uma bondade absurda, porque em suas verdes e doces esperanças, há em Gilda o toque do sonho e da simplicidade de se viver. Entre outra olhada, as orquídeas lhe sorriem abertas e reluzentes. Na briga com a jabuticabeira que carecia de poda em uns dos galhos, a mulher explica para árvore que há de se cortar para crescer, ela sabe bem que a próxima florada será intensa, antes dos frutos negros dependurados no tronco adocicarem sua alma. O jardim de Gilda guarda muito mais que beleza, guarda, ela mesma.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

ECLIPSE

Do Sol
esperava-se
apenas que
nascesse
ademais
do galo
que cantasse
nem um
nem outro
veio a despontar
e o cabloco
duvidou
da existência
de Deus:"mundo tá perdido"
mal sabia ele
da faceta
do dia
que acabava
em noite
e que encobria
o que lá
de cima Deus
sorridente
escondia

domingo, 26 de abril de 2015

HÁ QUE SE


                 Há que se ter coragem. Eu não tenho. Não arrisco, não ouso, tampouco petisco. Sou amante da seguridade, da estabilidade. Dureza ser assim, pois há mais caráter nisso que a própria definição de caráter. Na dúvida não falo, na incerteza não opino, o que sai de mim é porque tem o certo ar de verdade, pode até ser uma mentira, mas o que se sente há de ser verdadeiro em nós. E se a coragem eu tivesse, não saberia usá-la, porque assim como o pássaro hesita em sair da gaiola, assim eu não transito no abismo, nem quero vislumbrar o céu aberto. Há que se ter medo. Eu tenho. Todos. Variados e até obcecados. Das sensações, das vontades e dos desejos, porque há em mim tantos e tantas que tenho o tal medo de senti-los, nem em pensar é permitido. Há que se ter dúvida. Talvez. Tenho ora sim ora não. Quando sim é insegurança, quando não é instinto. E se no instinto cabe um pouco de coragem, isso eu não sei o porquê, na dúvida... me calo.

sábado, 25 de abril de 2015

A DELICADEZA DO AMOR

O amor é tão estranho
é infante, desatino
impossível de se ver
quando o queremos ser

O amor é passo doble
é junto, em melodia
solitário em se sentir
quando não podemos ter

O amor é calmaria
é a passagem, dia a dia
personagem em fantasia
quando o faz sofrer

O amor é delicado
é multifacetado por
desejos, retratos dos
amantes eternizados.

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...