segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PREÇO DA MORTE

Eu tenho medo de morrer! Pensei nisso outro dia, assim meio sem querer pensar, porque pensei que se ficasse pensando muito nesse assunto podia atrair pensamentos ruins e toda aquela bobagem que colocam na nossa cabeça frágil de criança. E assim, queria não pensar e o treco não saía da cabeça. Decidi que então, eu iria pensar de verdade no meu medo de morrer. Dessa incerteza de saber para onde eu ia, será que eu ia? E naquelas outras tantas tormentas que ficam vagando na nossa cabeça e que são dúvidas confusas porque às vezes ficam travestidas de certezas:eu vou para o céu? Minha alma ficará por aí a perambular no limbo? E foram nessas conjunturas de pensares, que me veio a mente uma frase de uma amiga muito querida, num dia em que falávamos sobre o assunto sombrio da morte: " Acho um desperdício eu morrer, eu tão alegre, estou tão bem aqui embaixo"... e entre risadas nossas percebi que já não pensava mais...o preço da morte é ser feliz.

QUIETUDE( Para Nilton Stéfano)

preciso de silêncio
não do seu silêncio
não do barulho lá de fora
é só um desejo de nada
de coisa nenhuma
um ficar quieto
de canto e
aqui
preciso do silêncio
não do meu silêncio
inexplicável e afônico
de sentido algum
é um querer mudo
de ócio e
paz

quinta-feira, 21 de julho de 2016

CASTIGO DO POETA

O que faço com
tantas saudades
diferentes e variadas
se os gramáticos 
me obrigam a sentir
uma saudade só?

terça-feira, 5 de julho de 2016

POEMA DO INVERNO

Há quem diga
que para crescer
tem que a primavera
parir
Há também quem...
que para brotar
o verão tem dever de
acalorar
Há mais ainda quem...
que para vingar
no outono teve que
orvalhar
Mas para amar
há que serem dois
no inverno a se
juntar

segunda-feira, 27 de junho de 2016

POEMA TORTO

Se por amor se 
finge e confunde
se cobra e se entrega
se troca e se estraga
se anula e se gasta
se abafa e se cansa
amarra, amarras, amarás?

Para amar se 
há o sentido e se funde
há troca e a entrega
que não cansa de amar
desabafa e contempla
há parceria na gesta
amaria, amareis, amarão.

Se por amor é caminho...
Para amar é destino!

quinta-feira, 19 de maio de 2016

DE NADA

nada tendo a dizer
calo-me
penso no não dito
bendito
só meneio a cabeça
com o vindo
e penso irritada
de nada

sábado, 23 de abril de 2016

NADA DE MIM

Não terá vida
nada além de
um vintém

De mim pode
levar o que
quiser

Em mim há
de sobrar
a poesia

Pensar então
vai ficar a
sombra

Nada de mim
há de
levar


quarta-feira, 23 de março de 2016

LAVAPÉS

Em tempos de me bajular, lavo minha alma de todas as retrancas que o mundo me deu e que a vida me dá. Envelheço de repente, ou nem percebo que velha estou a ficar. Já não permito mais em mim sair algo pela boca dito sem a cuja intenção. Há intenção. Há honestidade. Há o dito. E digo, assim sem as famosas papas na língua, porque a idade e talvez, a experiência me permitem fazê-lo. Estou a me lavar os pés, não dos apóstolos todos, porque esses foram lavados pelo Cristo Redentor e de nada adiantou aos homens tamanha fé. Não tenho tanta fé assim. Tenho apenas esperanças. E tenho sentido que é preciso lavar os pés e as almas minhas, porque sou boa pessoa. Na minha intenção há bondade e há tanto bocado de maldade e irritação quando julgo a injustiça e vejo na minha mão a possibilidade de julgo. Que a vida me permita sempre a lucidez de que necessito para continuar a enxergar em mim, o que de mim é o melhor.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

NADA A DECLAMAR

se não o final do conto
o fim da trégua
o longo afastamento
sem perdão
sem razão de ser
o gozo sem prazer
o amor sem beijo
ao longe, ao longe
o pigarro da tosse
sem o cigarro
o poema sem verso
sem rima, sem nada
a quadra sem graça
o poeta sem vigor
a linha final depois do travessão
que fala, que fala
nada
nada a declamar
se não o ocaso a brilhar
a vírgula singular
a flor que não abriu
o pensamento que não fluiu
a metáfora ruim
sem calma, sem palma
nada a declamar
nada
sem decorar a minha
alma

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CALENDÁRIO

Não é que queira que o tempo passe tão depressa e que as folhas caiam uma a uma, contando os meus dias, os nossos dias, os dias que deixamos de nos ver, os dias que eles deixaram de se falar, também as horas que ficaram de se ver e não se viram, os dias todos nublados que me deixaram dormir e a vocês também, e claro os dias de sol que bateram na minha cara e na sua e naquela cara que não queria sol. Não é que eu, você e eles queiram que os dias passem rápido, porque os dias das crianças demoram muito a chegar e se eu soubesse que os dias eram ligeiros em acontecer eu teria esperado com mais parcimônia e paciência e teria me entregue ao tempo. Não sei mais se quero o tempo passando nas minhas fuças, nas suas e nas daqueles que precisam que ele passe por algum motivo, ou porque querem esquecer da morte, ou porque suas tristezas custam a dobrar o pensamento e alojarem-se no esquecimento, ou porque querem que chegue logo o dia de nascer e casar. Não é que eu queira que esse tempo volte a andar amiúde. Não. Só queria que ele me acompanhasse os passos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

VENTO

E não é que ventou em mim
de um jeito que há
muito não sentia
vento com propriedade e corpo
ventania ia e balançava
minha alma
que toda em calmaria, apenas
o sentia

E não é que ventou em mim
de modo que há tanto
não já queria e bem
sabia que era possível ventar
ventaneira eira e carregava
minha saudade
que tinha cheiro, apenas
da infância

É que ventou em mim
ventanas abertas
assim 
sim
leve e
só.

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...