terça-feira, 23 de outubro de 2012

PNEUMOTÓRAX MODERNO


Lambuzam-te de gel,

enfiam-te goela abaixo

um canudo comprido.

Suspeitas daqui, evasivas dali, investigação, virose?

 

E é na incerteza da alma que o corpo padece!

sábado, 20 de outubro de 2012

BATE-BAÚ

O samba toca brejeiro,
as negras balançam os tornozelos
e o suor derramado deixa na Bahia o cheiro da saudade.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

OLHO ESQUERDO


É fim de tarde; o homem recebe um gesto carregado de imensidão que vem do abanar insistente da mulher que ele ama. Olha devagar e não retribui; entre eles há uma avenida repleta de carros, ônibus, motocicletas e gente, muita gente. Daquele lado de lá, a mulher procura, o sorriso é pleno, adocicado pelo entardecer que insiste em ofuscar a poluição. Do lado de cá, o homem, olha, ama, sabe e não abana nem um piscar. Entre eles, as buzinas de vozes e poeira, os cheiros da cidade, as sombras dos prédios sumindo na entrada da noitezinha que chega cansada do dia. Ele olha; a mulher se foi; ele suspira; ele ama; é fim; é tarde.

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

JOGO DE BÚZIOS


“Sua sina minha filha, eu vejo bem claro, é ser professora.”

“A senhora tem certeza?”

“São os Orixás que estão dizendo!”

 

domingo, 14 de outubro de 2012

GLOSA PARA GLÓRIA


Espanta-me a certeza

Da formosura e beleza

Sacodem a minha alma

Acolhem em pura calma

Embalam nossa história

Bela, doce e frágil Glória.

 

Quão estúpida cantoria

Sem a menor harmonia

Arruinaram sim vivalma

Estava na minha palma

Agora é pura braveza

Pela falta de destreza!

 

sábado, 13 de outubro de 2012

QUADRINHA EXÓTICA


 

O gatuno vestido de gibão,

Todo gaforina, grandíloquo

Cometeu a maior gafe: Fez

Glosa para a Glória errada.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

REDONDILHA BUCÓLICA


Outro de mim malquererá

Que o vento soprou suave

Melodias azuis em clave

Nessa sutil primavera.

 

Tranquilo já meu ser era

Pássaros piam conclave

Rosas cintilam no grave

E colorem a atmosfera.

 

Quanto de mim será mar?

Olho o místico luar...

Sensações agora mesmo.

 

Quanto aqui há de mirar?

Olho pujante a chorar...

Emoções confusas a esmo.

domingo, 7 de outubro de 2012

VIOLONCELO


Ontem meu sorriso foi-se amanhã

Brisa doce do teu olhar aturdido

Somente rancor profunda gadanha

Sabor amargo do ser iludido.

 

Se a tristeza soubesse meu nome

Saberia como peito dói ora range

Como nem o luar é meu cognome

Finda amor e nem som mais tange.

 

Esse amoroso antes tão apenso

Agora morto sofre mor intenso

Mutilado meu corpo é fustigo.

 

Os lábios padecem esperando

Os olhos compassam lembrando

Que a vida trouxe-me como castigo.

 

 

 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

HIPOTECA


Hoje você percebeu que errou. Viu que aquela pessoa não era tão ruim assim, ou que o dia estava mais belo como o de costume, e que não era tão vil e mesquinho, ou austero e orgulhoso como pensaram. Hoje decidiu que era tempo de ser mais leve, mais doce e brando, menos apegado a toda essa gente, a todas as convenções. Que sorte a sua ao perceber o olhar amistoso daquele que passava e dar adeus às moças e rapazes; dizer um bom dia e outros tantos obrigados. Foi bom ter visto que é tempo da temperança. Deixou de lado as vingancinhas idiotas,ironias, hipocrisias e tratou de cuidar da sua alma, que agora está tranquila e não mais tomada por empréstimo para o seu ser confuso e hostil. Muito bem, o mundo está feliz em vê-lo assim. Resolveu que era hora de olhar para frente, para os lados e para todas as direções. Que deixaria para lá, lá distante, o que quer de sério e de transtorno; e passaria a flutuar pela vida, livre, sem receios, sem constrangimentos, sem precisar transferir títulos ou posses, ou qualquer bem...para ninguém.

 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

AVULSO

Que faz o poeta com um enorme punhado de palavras rasurando sua alma?
Arrancaram dele o versinho rimado, elegantemente alinhado em quatro, quatro, três e três...
Era para ser um soneto, era...
Virou seresta para a senhora viúva que o rejeitou.
E o pobre poeta uivou, desolado, criou trovinhas pulhas e escorregadias,
para realmente deixar todos bem irritados.
Em seus versos púnicos, o tal poeta apunhalou seu próprio destino
e morreu com a pena na mão.

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...