As cerejas são
maiores e mais doces no inverno e talvez por isso o tempo esteja tão propício
para as cerejas. Para os sentimentos o tempo não está lá essas coisas. A dor
não é mais tão doce e no frio as dores são mais intensas e indesejáveis. Entender
o porquê da doçura das cerejas causa muito desgaste. No fundo não é possível
entender o natural correr das coisas, porque é preciso muito mais que
conhecimento, que clareza e que percepção; é necessário não estar metido nas
confusões de alma e sempre estamos metidos nas confusões das almas. E a gente
cansa de não entender, a gente quer ficar distante da razão, a gente quer
apenas colher as cerejas e comê-las, lavá-las e comê-las, apenas. O tempo não
está lá essas coisas para os sentimentos e as dores são mais frias no inverno.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
terça-feira, 18 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
LECTURAS
¿Que sentimientos se percibe em mi?
La trama es la parte central de mis hechos y aventuras
Soy la narración
Soy la acción
Soy todo el desarrollo del tiempo
Soy yo que soy la persona que cuenta mi historia
y la misma persona que casi inconsciente ejecuta la acción
sea real o imaginaria!
La trama es la parte central de mis hechos y aventuras
Soy la narración
Soy la acción
Soy todo el desarrollo del tiempo
Soy yo que soy la persona que cuenta mi historia
y la misma persona que casi inconsciente ejecuta la acción
sea real o imaginaria!
segunda-feira, 10 de junho de 2013
CRÔNICA EM DOIS ATOS-II
SEGUNDO
ATO
Para
uns é sinal de bravura e destemor, outros de descaramento e petulância, a
coragem é o sentimento mais confuso que há, pois não se nasce com ela,
adquire-se. Os maus a possuem em demasia e nem sabem que suas crueldades são
fruto de suas coragens desmedidas; os bons sonham com ela, planejam, calculam
os riscos, porque para estes, ser corajoso é ser irracional, é como atravessar
as ruas sem olhar ou vestir uns patins.
A
mulher nessa manhã acordou diferente. Lembrou-se do sonho com detalhes e ficou
confusa demais. No trajeto da ida costumava não pensar e apenas olhar o nada,
mas tudo parecia mais conturbado e sair da rotina, trabalhar, apanhar,
trabalhar, apanhar não estavam nos seus planos. O ápice dessa imensa confusão
mental foi perceber que havia trocado a marca do lustra móveis, a gerente
enjoara com o cheiro anterior. Não sabia o que pensar, nem o que dizer ou
fazer, parecia não entender, como não entendem algumas pessoas os espetáculos
em dois atos.
Naquele
dia não apanhou. Não se sabe o porquê que ela não apanhou. Se o roteiro original
havia sido modificado. Não se sabe se o destino achou que era hora de plantar
algo por ali. Ou o mero acaso das coincidências. Ou mesmo não se sabe se Deus
se desocupou das suas tantas mazelas a serem resolvidas e decidiu olhar para
aquela sua filha, a faxineira, murcha de carnes e de sentimentos, olhos vivos
porque a vida lhe ensinara que era preciso viver uma noite de cada vez, assim
como se descasca primeiro a laranja para depois comê-la.
Não
lembrava a mulher de não dormir durante a noite, por causa do corpo e dos ossos
e dos olhos tão fatigados do dia que essa tarefa lhe parecia impossível, porém
não dormia; olhava para o corpo do homem que o destino lhe reservara e que
agora dormia o sono dos injustos, com um olhar estranhamente revelador. A
mulher olhou e se levantou. Foi até a cozinha e procurou. A coragem lhe invadiu
os últimos neurônios que agitadamente se concatenavam em ideias e ações nunca
antes pensadas tampouco sonhadas.
A
mulher juntou tudo o que tinha as poucas roupas, os documentos, o dinheiro
mentirosamente guardado, o dinheiro do homem, e qualquer outra coisa que fosse
somente sua. Saiu pela madrugada a caminho não se sabe ao certo para onde, mas
ela sabia que era para muito longe dali. Longe daquele homem e de todos os
panos de lustrar. Na rodoviária, parou em qualquer destino, porque nessa altura
não importava mais o para onde e sim o ir. Foi-se.
A
vista da estrada era clara e límpida como a água do rio da nascente que brota.
domingo, 9 de junho de 2013
CRÔNICA EM DOIS ATOS
PRIMEIRO ATO
Mulher
de trinta anos, aparentando quase os quarenta, cabelos duramente crespos, corpo
magro e gélido, murcho, como um balão depois de estourado, olhos curvos
acentuadamente castanhos e brilhosos não se sabem os porquês. Personagem da
vida cotidiana, da cidade, da comunidade em que vive, com o homem que o destino
lhe reservou, também não se sabe o porquê.
Nas
suas cenas rotineiras, acorda ás cinco e dez da madrugada, para que se tudo
correr como o de costume, chegar ao lugar de ofício sete em ponto. No trajeto,
essa mulher não pensa em nada. Observa a paisagem como se nunca tivessem
passado as vistas, inéditas e estranhamente perdidas. Não se lembra do dia
anterior, porque lhe ensinara a vida que é preciso vivê-los assim um a um, sem
certezas de nada, como a um remédio que não se sabe se a gota cairá ou não.
O
limpar dos pisos, das escadas e corrimões eram feitos cada dia de uma maneira
diferente para que nada fosse igual. O lustra móveis era enjoativo, e o cheiro
impregnado em suas mãos não saía. Outra coadjuvante da faxina perguntou para a
moça o que era o olho roxo e inchado e como àquilo não deveria fazer parte do script
da sua vida, respondeu suavemente que caíra da escada, lustrara demais os pisos
e mentir era tão fácil e rápido como lustrar.
Apanhava
dia sim dia não. Dependendo da vontade do homem que o destino lhe reservou e da
sorte, apanhava apenas uma vez na semana. E também assim, uma vez na semana,
gastava no restaurante do prédio um dos seus vales-alimentação, separadamente
guardados pela mentira e comia o que era somente o prazer, seu pequeno e único
prazer, porque já se sabe que é preciso deixar que um dia corra de cada vez,
como o cavalo que corre na sua raia, sem pensar em nada, apenas esperando a
chegada final.
Se
na ida não pensava em nada, na volta era diferente. Pensava como terminaria o
seu dia. Não sentia mais medo, porque já havia passado dessa fase, a do terror
também, a da tristeza, da raiva e não se sabe por qual razão encontrava-se na
resignação. Não da fé. Nem pensava mais em Deus, porque não mais adiantava
pensar nele. A resignação era da certeza, da real e certa e fatídica situação
que lhe esperava. A mesma certeza como o cheiro impregnava suas mãos.
Naquela
noite apanhou. Chorou e dormiu. Sonhou que matava o homem que o destino lhe
reservou com uma faca afiada. Com o corpo amolecido em sua frente ela limpava o
sangue com o paninho de lustrar para depois embrulhá-lo no lençol. O corpo
sumia de repente. No sonho, na cena seguinte, ela saía caminhando tão livre que
o medo era forte e intenso. No restaurante do prédio ela pedia o prato mais
caro e o doce mais doce que tinha.
Naquela
noite apanhou. Chorou e dormiu.
sábado, 8 de junho de 2013
CRIPTOGRAMA
Maldita
sejam as origens, as regras e toda essa tradição. As favas com as tradições. A
mesmice do ser assusta. Caminha-se com o mesmo passo dos primeiros homens a
darem os primeiros passos eretos, e esperava-se que assim, com os olhares
paralelos ao futuro, vissem além de suas oculares. Ninguém abandona suas
origens. Ao diabo com a bendita essência. Há que se preservá-la, quer seja para
o bem ou para mal. O rio continua a procura do mar. E o Sol guarda-se para a
Lua aparecer. Os sorrisos exagerados são os mesmos de séculos atrás e a flor
dada aos buquês continua a ter o mesmo efeito. Evolui-se e anda-se ao revés.
Nada é o novo. As histórias de amor são as mesmas histórias de amor. As mortes
são mortes. E a esperança da novidade é apenas esperança.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
QUADRINHA SOLITÁRIA
Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!
segunda-feira, 27 de maio de 2013
DESPERTAR
A
coragem que a vida tem de desabar sobre as nossas cabeças é algo que nos passa
sempre despercebido. Enquanto nosso olhar transita pelo óbvio e muitas vezes
para o distanciamento, a vida vai desenhando os pormenores que nos escapam
feito o vento. Caminhamos com o rosto virado para direções sempre únicas, com
rédeas que nos impedem de enxergar pequenos detalhes e minúsculas ações.
De um
sorriso não visto até uma flor ridiculamente aberta, o que nos empurra para
seguir vivendo nunca são as sutilezas, mas sim os arrebatamentos. Talvez seja
porque nossa eterna dúvida sobre o que estamos fazendo aqui e a nossa certeza
absoluta de que vamos morrer, caminhem lado a lado, tenuemente ligadas por um
ser incerto, incompleto e cheio de perguntas.
Nessa
manhã acordei diferente. Pensei que o tempo de ontem tinha passado depressa
demais para a criança que havia sido outrora adolescente e agora adulta. Nesses
pensamentos todos e ora tolos, desejei mais lembrar-me de todas as grandes
delicadezas e pequenas agudezas de espírito do que dos meus grandes ou
tortuosos feitos. Nessa manhã acordei mais velha e certamente com maior coragem
para olhar para vida, como jamais havia olhado.
sábado, 25 de maio de 2013
INCONGRUENTE
Da janela vê-se
Só um céu que
Emoldurado pelos
Telhados alaranjados
Reduz o infinito apenas num retângulo!
quarta-feira, 22 de maio de 2013
OUÇA OU LEIA, OU OS DOIS, TANTO FAZ, DEPOIS FAÇA O QUE QUISER!
Parada
no carro em frente ao metrô. Espero. No rádio toca Dream a littte dream of me. Aumento imediatamente o volume e num
inglês parco e desafinado tento reproduzir o jazz envolvente. Meus dedos correm
o volante-bateria e meneio a cabeça para lá e para cá. Olho. Logo a frente um
homem vem vindo. Andar é arrasto. Rosto de cansaços. As mãos arrebentadas
denunciavam um possível trabalhador braçal. Penso nisso. Volto meu olhar. Ele olha
para mim. Passa pelo meu lado direito e seu passo é lento. Mais lento. Penso em
assalto, não respiro e tampouco olho para o lado. Ele diminui mais o passo. Ele
ouve a melodia que estava no ápice do refrão. Ele meneia a cabeça. Sorri. Atravessa
o corpo do carro e percebo que seu andar é outro. Pelo retrovisor vejo agora
que os seus passos são embalados, ritmados pela agradável melodia... e anda e
sonha e dança.
Mal reparei
que a música havia acabado. Envergonhada. Melancolicamente muda. Assalto? A gente
pensa. Tem medo de. Gente. Sente. Sinto tanto.
Felicidade
é andar sonhando.
domingo, 19 de maio de 2013
DOIS DE PAUS
Meus
ombros doem e meus olhos lacrimejam. Estamos na época da sobrevivência e da
pungência. Sorrir é uma arte e escapar das mentiras e injustiças é quase impossível.
Olho para os troncos da árvore que nascem retorcidos e curvados para a vida, porque
já não sabem mais lidar com tanto frio, seco, calor e ora acordam alagados e
submersos no acaso. Meu peito salta e procuro o olhar das crianças que ainda não
sabem vislumbrar o futuro, queria tanto esse olhar do agora, do já. A rosa
abriu, porque era preciso abrir e nem pensou se suas pétalas haviam de se
despencar um dia, abriu apenas. Queria poder ter o silêncio das bordadeiras que
trançam as linhas coordenadamente imersas na certeza da prontidão. Se a vida
fosse uma toalha bordada de certezas, saberia como fazê-la.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
QUARAR
Qual Sol
vai branquear
o dia negro sem fim?
Qual Sol
há de clarear
o choro exaustivo da menina?
Qual Sol
irá quarar
a roupa encardida da senhora?
Qual Sol
capaz de brilhar
se é o fim da primavera?
vai branquear
o dia negro sem fim?
Qual Sol
há de clarear
o choro exaustivo da menina?
Qual Sol
irá quarar
a roupa encardida da senhora?
Qual Sol
capaz de brilhar
se é o fim da primavera?
terça-feira, 14 de maio de 2013
sábado, 11 de maio de 2013
ANACRÔNICO
Se uma hora tivesse
eu, no final do dia e
assim depois das tantas
vinte e quatro...
...vinte e cinco!
Encontrássemos-nos
num tempo congelado
de infinito e dimensão
e que nós tivéssemos
nosso amor eternizado
e que o tempo jamais
pudesse passar ou esquecer ou atrasar ou findar
e que eu ficasse presa
nesses dois azuis para
nunca mais voltar.
Nessa manhã o céu pareceu mais azul como de costume.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
EPIFANIA
Quero a minha vida
exatamente assim
como foi e está sendo
com as mesmas dores
as mesmas alegrias
porque ambas têm
todo sentido em mim
quero a mesma família
os amores e amigos
os que foram e os que
estão por vir, porque
tudo isso me pertence
tal qual o Sol ou a Lua
me pertencem também,
tal como a poesia que é
viver a minha vida, que
corre assim como quem
vai para o mar, num fio
d’água de desejo, sentido
e profundezas, porque
tudo isso me pertence
agora e sempre!
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CRÔNICA SEM FIM
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