sexta-feira, 21 de junho de 2013

INVERNAR


As cerejas são maiores e mais doces no inverno e talvez por isso o tempo esteja tão propício para as cerejas. Para os sentimentos o tempo não está lá essas coisas. A dor não é mais tão doce e no frio as dores são mais intensas e indesejáveis. Entender o porquê da doçura das cerejas causa muito desgaste. No fundo não é possível entender o natural correr das coisas, porque é preciso muito mais que conhecimento, que clareza e que percepção; é necessário não estar metido nas confusões de alma e sempre estamos metidos nas confusões das almas. E a gente cansa de não entender, a gente quer ficar distante da razão, a gente quer apenas colher as cerejas e comê-las, lavá-las e comê-las, apenas. O tempo não está lá essas coisas para os sentimentos e as dores são mais frias no inverno.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

LECTURAS

¿Que sentimientos se percibe em mi?

La trama es la parte central de mis hechos y aventuras
Soy la narración
Soy la acción
Soy todo el desarrollo del tiempo
Soy yo que soy la persona que cuenta mi historia
y la misma persona que casi inconsciente ejecuta la acción
sea real o imaginaria!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

CRÔNICA EM DOIS ATOS-II


SEGUNDO ATO

Para uns é sinal de bravura e destemor, outros de descaramento e petulância, a coragem é o sentimento mais confuso que há, pois não se nasce com ela, adquire-se. Os maus a possuem em demasia e nem sabem que suas crueldades são fruto de suas coragens desmedidas; os bons sonham com ela, planejam, calculam os riscos, porque para estes, ser corajoso é ser irracional, é como atravessar as ruas sem olhar ou vestir uns patins.

A mulher nessa manhã acordou diferente. Lembrou-se do sonho com detalhes e ficou confusa demais. No trajeto da ida costumava não pensar e apenas olhar o nada, mas tudo parecia mais conturbado e sair da rotina, trabalhar, apanhar, trabalhar, apanhar não estavam nos seus planos. O ápice dessa imensa confusão mental foi perceber que havia trocado a marca do lustra móveis, a gerente enjoara com o cheiro anterior. Não sabia o que pensar, nem o que dizer ou fazer, parecia não entender, como não entendem algumas pessoas os espetáculos em dois atos.

Naquele dia não apanhou. Não se sabe o porquê que ela não apanhou. Se o roteiro original havia sido modificado. Não se sabe se o destino achou que era hora de plantar algo por ali. Ou o mero acaso das coincidências. Ou mesmo não se sabe se Deus se desocupou das suas tantas mazelas a serem resolvidas e decidiu olhar para aquela sua filha, a faxineira, murcha de carnes e de sentimentos, olhos vivos porque a vida lhe ensinara que era preciso viver uma noite de cada vez, assim como se descasca primeiro a laranja para depois comê-la.

Não lembrava a mulher de não dormir durante a noite, por causa do corpo e dos ossos e dos olhos tão fatigados do dia que essa tarefa lhe parecia impossível, porém não dormia; olhava para o corpo do homem que o destino lhe reservara e que agora dormia o sono dos injustos, com um olhar estranhamente revelador. A mulher olhou e se levantou. Foi até a cozinha e procurou. A coragem lhe invadiu os últimos neurônios que agitadamente se concatenavam em ideias e ações nunca antes pensadas tampouco sonhadas.

A mulher juntou tudo o que tinha as poucas roupas, os documentos, o dinheiro mentirosamente guardado, o dinheiro do homem, e qualquer outra coisa que fosse somente sua. Saiu pela madrugada a caminho não se sabe ao certo para onde, mas ela sabia que era para muito longe dali. Longe daquele homem e de todos os panos de lustrar. Na rodoviária, parou em qualquer destino, porque nessa altura não importava mais o para onde e sim o ir. Foi-se.

A vista da estrada era clara e límpida como a água do rio da nascente que brota.

 

 

domingo, 9 de junho de 2013

CRÔNICA EM DOIS ATOS


PRIMEIRO ATO

Mulher de trinta anos, aparentando quase os quarenta, cabelos duramente crespos, corpo magro e gélido, murcho, como um balão depois de estourado, olhos curvos acentuadamente castanhos e brilhosos não se sabem os porquês. Personagem da vida cotidiana, da cidade, da comunidade em que vive, com o homem que o destino lhe reservou, também não se sabe o porquê.

Nas suas cenas rotineiras, acorda ás cinco e dez da madrugada, para que se tudo correr como o de costume, chegar ao lugar de ofício sete em ponto. No trajeto, essa mulher não pensa em nada. Observa a paisagem como se nunca tivessem passado as vistas, inéditas e estranhamente perdidas. Não se lembra do dia anterior, porque lhe ensinara a vida que é preciso vivê-los assim um a um, sem certezas de nada, como a um remédio que não se sabe se a gota cairá ou não.

O limpar dos pisos, das escadas e corrimões eram feitos cada dia de uma maneira diferente para que nada fosse igual. O lustra móveis era enjoativo, e o cheiro impregnado em suas mãos não saía. Outra coadjuvante da faxina perguntou para a moça o que era o olho roxo e inchado e como àquilo não deveria fazer parte do script da sua vida, respondeu suavemente que caíra da escada, lustrara demais os pisos e mentir era tão fácil e rápido como lustrar.

Apanhava dia sim dia não. Dependendo da vontade do homem que o destino lhe reservou e da sorte, apanhava apenas uma vez na semana. E também assim, uma vez na semana, gastava no restaurante do prédio um dos seus vales-alimentação, separadamente guardados pela mentira e comia o que era somente o prazer, seu pequeno e único prazer, porque já se sabe que é preciso deixar que um dia corra de cada vez, como o cavalo que corre na sua raia, sem pensar em nada, apenas esperando a chegada final.

Se na ida não pensava em nada, na volta era diferente. Pensava como terminaria o seu dia. Não sentia mais medo, porque já havia passado dessa fase, a do terror também, a da tristeza, da raiva e não se sabe por qual razão encontrava-se na resignação. Não da fé. Nem pensava mais em Deus, porque não mais adiantava pensar nele. A resignação era da certeza, da real e certa e fatídica situação que lhe esperava. A mesma certeza como o cheiro impregnava suas mãos.

Naquela noite apanhou. Chorou e dormiu. Sonhou que matava o homem que o destino lhe reservou com uma faca afiada. Com o corpo amolecido em sua frente ela limpava o sangue com o paninho de lustrar para depois embrulhá-lo no lençol. O corpo sumia de repente. No sonho, na cena seguinte, ela saía caminhando tão livre que o medo era forte e intenso. No restaurante do prédio ela pedia o prato mais caro e o doce mais doce que tinha.

Naquela noite apanhou. Chorou e dormiu.

 

sábado, 8 de junho de 2013

CRIPTOGRAMA


Maldita sejam as origens, as regras e toda essa tradição. As favas com as tradições. A mesmice do ser assusta. Caminha-se com o mesmo passo dos primeiros homens a darem os primeiros passos eretos, e esperava-se que assim, com os olhares paralelos ao futuro, vissem além de suas oculares. Ninguém abandona suas origens. Ao diabo com a bendita essência. Há que se preservá-la, quer seja para o bem ou para mal. O rio continua a procura do mar. E o Sol guarda-se para a Lua aparecer. Os sorrisos exagerados são os mesmos de séculos atrás e a flor dada aos buquês continua a ter o mesmo efeito. Evolui-se e anda-se ao revés. Nada é o novo. As histórias de amor são as mesmas histórias de amor. As mortes são mortes. E a esperança da novidade é apenas esperança.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

DESPERTAR


A coragem que a vida tem de desabar sobre as nossas cabeças é algo que nos passa sempre despercebido. Enquanto nosso olhar transita pelo óbvio e muitas vezes para o distanciamento, a vida vai desenhando os pormenores que nos escapam feito o vento. Caminhamos com o rosto virado para direções sempre únicas, com rédeas que nos impedem de enxergar pequenos detalhes e minúsculas ações.

De um sorriso não visto até uma flor ridiculamente aberta, o que nos empurra para seguir vivendo nunca são as sutilezas, mas sim os arrebatamentos. Talvez seja porque nossa eterna dúvida sobre o que estamos fazendo aqui e a nossa certeza absoluta de que vamos morrer, caminhem lado a lado, tenuemente ligadas por um ser incerto, incompleto e cheio de perguntas.

Nessa manhã acordei diferente. Pensei que o tempo de ontem tinha passado depressa demais para a criança que havia sido outrora adolescente e agora adulta. Nesses pensamentos todos e ora tolos, desejei mais lembrar-me de todas as grandes delicadezas e pequenas agudezas de espírito do que dos meus grandes ou tortuosos feitos. Nessa manhã acordei mais velha e certamente com maior coragem para olhar para vida, como jamais havia olhado.

sábado, 25 de maio de 2013

INCONGRUENTE


Da janela vê-se

Só um céu que

Emoldurado pelos

Telhados alaranjados

Reduz o infinito apenas num retângulo!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

OUÇA OU LEIA, OU OS DOIS, TANTO FAZ, DEPOIS FAÇA O QUE QUISER!


Parada no carro em frente ao metrô. Espero. No rádio toca Dream a littte dream of me. Aumento imediatamente o volume e num inglês parco e desafinado tento reproduzir o jazz envolvente. Meus dedos correm o volante-bateria e meneio a cabeça para lá e para cá. Olho. Logo a frente um homem vem vindo. Andar é arrasto. Rosto de cansaços. As mãos arrebentadas denunciavam um possível trabalhador braçal. Penso nisso. Volto meu olhar. Ele olha para mim. Passa pelo meu lado direito e seu passo é lento. Mais lento. Penso em assalto, não respiro e tampouco olho para o lado. Ele diminui mais o passo. Ele ouve a melodia que estava no ápice do refrão. Ele meneia a cabeça. Sorri. Atravessa o corpo do carro e percebo que seu andar é outro. Pelo retrovisor vejo agora que os seus passos são embalados, ritmados pela agradável melodia... e anda e sonha e dança.

Mal reparei que a música havia acabado. Envergonhada. Melancolicamente muda. Assalto? A gente pensa. Tem medo de. Gente. Sente. Sinto tanto.

Felicidade é andar sonhando.

 

domingo, 19 de maio de 2013

DOIS DE PAUS


Meus ombros doem e meus olhos lacrimejam. Estamos na época da sobrevivência e da pungência. Sorrir é uma arte e escapar das mentiras e injustiças é quase impossível. Olho para os troncos da árvore que nascem retorcidos e curvados para a vida, porque já não sabem mais lidar com tanto frio, seco, calor e ora acordam alagados e submersos no acaso. Meu peito salta e procuro o olhar das crianças que ainda não sabem vislumbrar o futuro, queria tanto esse olhar do agora, do já. A rosa abriu, porque era preciso abrir e nem pensou se suas pétalas haviam de se despencar um dia, abriu apenas. Queria poder ter o silêncio das bordadeiras que trançam as linhas coordenadamente imersas na certeza da prontidão. Se a vida fosse uma toalha bordada de certezas, saberia como fazê-la.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

QUARAR

Qual Sol
vai branquear
o dia negro sem fim?

Qual Sol
há de clarear
o choro exaustivo da menina?

Qual Sol
irá quarar
a roupa encardida da senhora?

Qual Sol
capaz de brilhar
se é o fim da primavera?
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

sábado, 11 de maio de 2013

ANACRÔNICO


Se uma hora tivesse

eu, no final do dia e

assim depois das tantas

vinte e quatro...

...vinte e cinco!

 

Encontrássemos-nos

num tempo congelado

de infinito e dimensão

e que nós tivéssemos

nosso amor eternizado

e que o tempo jamais

pudesse passar ou esquecer ou atrasar ou findar

e que eu ficasse presa

nesses dois azuis para

nunca mais voltar.

 

Nessa manhã o céu pareceu mais azul como de costume.

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

EPIFANIA


Quero a minha vida

exatamente assim

como foi e está sendo

com as mesmas dores

as mesmas alegrias

porque ambas têm

todo sentido em mim

quero a mesma família

os amores e amigos

os que foram e os que

estão por vir, porque

tudo isso me pertence

tal qual o Sol ou a Lua

me pertencem também,

tal como a poesia que é

viver a minha vida,  que

corre assim como quem

vai para o mar, num fio

d’água de desejo, sentido

e profundezas, porque

tudo isso me pertence

agora e sempre!

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...