segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

VERDOR ( PARA GABRIELA)

O portão era cinza, e beirava os dois metros, ocupando toda a extensão da casa da Rua Dom Bosco. As grades largas do portão eram propositais, o olhar entrecortado podia desvendar um jardim bem cuidado e prepotente. Cada planta ocupava seu lugar; do canteiro das bromélias raras até o despudor das marias-sem-vergonha permitiam ao transeunte  vislumbrar-se com tamanha beleza.
Em meio às jabuticabeiras, ainda verdes e grudadinhas, uma garotinha, cacheadamente loira, nos seus dois anos, se sujava! Recolhia sei lá o que, daqui para lá, e compunha, a quem passava pelo portão, parte da paisagem colorida. Para alguns imagem desapercebida atrás do jasmim-manga escondida nas florezinhas brancas e perfumadas, porém, para outros não.
A certa altura da tarde, um bêbado enquadrou sua face vermelha pela embriaguez nas grades acinzentadas do vergel e passou a admirar a menina. Contemplativo, seguro de seu olhar, o pobre homem, resmungava alto, contudo, como que para si: É um anjinho! Que linda!
A pequena mocinha, contrariando todas as normas cerimoniais, num gesto egrégio, encostou as mãozinhas na grade, rosto quase colado ao ébrio, (que por um segundo se afastou, incrédulo), e pôs-se a sorrir. Ambos sorriram.
O instante durou o suficiente para eternizá-lo em minha memória. O instante, suficiente para que o pai delicadamente arrancasse a garotinha cacheada das grades e carregasse-a, desculpando-se sei lá do que, sumindo casa à dentro.
O homem saiu devagarzinho, segurando grade a grade, esbandalhado; teve tempo ainda de balançar as mãos para cima, limpar os olhos, que julguei serem lágrimas e se foi. Acompanhei até que dobrou a esquina.
 Voltei meu olhar para o verdor daquele jardim, daquela menina e de mim mesma.  

sábado, 29 de janeiro de 2011

SURPRESA

A surpresa é efêmera,
dura apenas o tempo de não sabê-la.

A surpresa é um acaso,
sobrevive apenas da duração da conspiração.

A surpresa é a morte,
perdura na esperança remota da lembrança.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

INQUIETAÇÕES DO GUILHERME (PARA O GUI DA MAMÃE)

O que é quântico?
Nossa como esse lugar é sombrio!
O nome do Deus da morte é Anubis.
Isso que você disse é uma metáfora.
Qual é o nome mesmo daquele ser unicelular?
Você vem sempre aqui?
Os neutrinos existem na água.
Caim matou Abel, essa foi a primeira morte da história da humanidade.
Gabi, eu te amo.
Da onde vem a eletricidade do raio?
Nossa como você é mal-educada!
Isso é inércia.
Não, a vovó Inês morreu, ela não virou estrelinha,
estrelas são corpos celestes!
Aliás, uma estrela estava orbitando outra, e aí elas causaram um
efeito estilingue...

PUNDONOR

ACERTOU COM TIRO
DE CHUMBINHO
A VADIA E O GARANHÃO
E AINDA POR CIMA
FOI PARAR NA DELEGACIA.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

HAICAI DA DÚVIDA

O rio verde
talvez talvegue
pela tarde adormecida!

Olhos míopes

Cantina dos músicos, Leandro canta e não consigo entender a música, pois Enrique chora junto ao André um clarinete. Enquanto os dois continuam a clarinetear meu olhar cruza os olhos vivazes, serenos e doces de Márcia e meu corpo se lança num abraço saudoso e sincero.
Olho para o Fábio Roberto e começo a suar frio. A Kodak veio. Já haviam tomado algumas cervejas, tento beber logo para amenizar o sofrimento e a angústia da maquininha a minha frente.
Leandro sorri para mim e meu coração agradece. Ainda aflita não reconheci a melodia, mas isso não importa, sua voz me sorri e começamos a rir do todo. Volta Carlão. Numa tequila imaginária Carlos  e eu esguichamos limão nas lentes. Meu intuito era atingir as oculares da velha Kodak e oxidá-las para que meu pavor chegasse ao fim. Em vão limpo minhas lentes e decido ficar míope.
Finalmente, salva por um átimo, Márcia delineava-se no palco de mãos dadas com Leandro. Agradeci por estar ali, com aquela gente toda, entregue, simplesmente unida e tão diferente, mas urgente no querer sentir.
Jairo aponta e tenta sorrir; ofereço batata-frita e Jorge Bem Jor, porém ele recusa. Prefere ir com a Rô dormir. Ela me beija com uma ponta de ficar. Volta Rô! André passa. O garçom quase recolhe meus óculos e meu olho míope escuta Valsa Brasileira, quase chora. Sinto uns flashs brilharem e quebrarem meu silêncio. Maldita conspiração! Thaty me beija antes de capturar mais um retrato indesejável de minha alma e me entrego á doce Thaty.
Carlão pensa em sua consorte; Fábio borbulha Márcia e bêbada, beijo Enrique, certa de que já o conhecia mil anos antes de conhecê-lo.
Click! Que maçada! Entrego-me. Ufa, minha Sarah chega. Ensina-me como disfarçar uma foto. Acostumou-se. Ensina-me mais, ensina-me a querê-la cada vez mais e assim trocamos afetos eternos naquele bar.
Leandro Tem Fome. Márcia também. E entre uns cigarros e outros Celi lembra que alguém tem que trabalhar nessa casa e mesmo cansada samba, com promessas de replay.
Os olhos luzeiros de Fábio Roberto se perdem no ontem-amanhã. Meu olho divergente tenta captar seus sentimentos e o tempo pára para nós dois. Ele na busca da sua eternidade e eu no entendimento.

“Olha o passarinho!”
Nossa foto ficou boa. É um sofrimento acabar em foto. Temos que ir. Não quero que acabe. Meus olhos ganham óculos e sinto a dor da despedida. Porque ali não era eu, éramos nós.

domingo, 23 de janeiro de 2011

MINI-CRÔNICA

         O famoso lambe-lambe  e sua potente Kodak entram num recinto...
         A luz não importa, nem sequer é necessário um refletor para que seus dedos ágeis e duros apertem o botão e um flash sorridente capture o instante.
         No seu transtorno-maníaco-compulsivo-obsessivo, obseda na imaginação o melhor ângulo da figura que se move em sua frente. Atenção! Um corpo que chega, uma lingüiça que se movimenta, um rosto que lamenta, uma boca que canta, um instrumento que toca, o rebolar dos quadris, a pose da moça, um fotofóbico que balança e o cão que ri. Não há objeto para a objetiva que retrata o indelével.
         Como se não bastasse, o impávido fotógrafo precisa também ser parte da sua sétima ou décima arte, e num revés desesperado, em toda a loucura, procura um regra-três que com seu dedo substituto em riste, faça surgir num “click” a imagem congelada do exímio-louco que lhe sorri.
         E todos os instantes não revelados,  nem coloridos tampouco pretos e brancos se avolumam nas páginas solitárias virtuais, a espera de um outro olhar, que saudoso relembre o momento e gargalhe ou chore ou...
         Lá vai o famoso lambe-lambe produzir suas fotos-legenda.
         “E não é que você ficou bem na foto”.

sábado, 22 de janeiro de 2011

MAS É CARNAVAL

 

É sempre carnaval; só trocamos as fantasias.

Vai me dizer que não está agora em cima do carro alegórico, prestes a cair.

Ou ainda, está assistindo a escola passar antes ou depois do tempo estipulado por Deus.

Cuidado ou a bateria atropela-te.

 


PÉSSIMO CONSELHO

Sem Deus no meio.
Vou tentar ler suas imprecações sem tentar fazer papel de almaço ou de tia velha.
Quem sabe passo merda na minha cara.
Desculpe-me, não era para “desconvencer” tamanha sabedoria divina engessada.
Pensei que meu conselho se tratava de um estro na sua vida. Enganei-me.
E lá vou eu...                                                                                          

RENDA

O entremeio entre a vida e a morte não são as besteiras,  são sim as tentativas!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Olhar xadrez

    A criança olhava para mim tão profunda e estranhamente, que confesso tinha medo. Cabelos curtíssimos, nem gorda nem magra, toda castanha. Na aparência era a mais normal das crianças.
      - É sua vez Rafa. 
     O menino levantava e passava me olhando antes de entrar no consultório; Isso acontecia todas às quartas-feiras, as sete da noite, nesses últimos três meses. Nem uma palavra, nem para mim, nem para sua mãe, nem para Dr. Fonseca.
     A porta abria-se depois dos cinqüenta minutos cravados e... 
     - Até semana que vem Rafael. Espero você para conversarmos mais..._ dizia, Dr. Fonseca, sempre que o garoto emudecido saía da sala. 
     Sabemos todos, porém, que Rafael, não só não dizia nada, há exatos seis meses, como também, não falava na escola, nem em casa, nem com os pais, ou com a irmã. Não tinha motivo aparente para tal acontecimento: nada de traumas, sem doenças, nada, absolutamente nada. Apenas um transe, uma mudez calada, um sei-lá-o-quê inexplicável.
     Ninguém ouviu sua voz depois de um dia qualquer, que a mãe não mais se lembra, e que só botou reparo quando a coisa ficou mais séria e perceptível. O fato é que muitos doutores, professores, benzedeiras e amigos tentaram antes do Dr. Fonseca, dantes nova esperança, que hoje já estava velha, visto que o menino não balbuciou nem um a.
     De todos os pacientes que eu cadastrava, fazia ficha, nesses longos anos com Dr. Fonseca, nada me pareceu tão assustador e insólito.
     -O senhor tem certeza que ele não é autista, ou sofreu algum trauma e não quis contar.
     - Pelo que a mãe disse, trauma, nenhum, e claro, ele não é autista, ele interage comigo, olha no olho, como se eu tivesse culpa de algo. Semana passada jogamos xadrez, não lhe contei?
     - Não, incrível Dr., e ele disse...
     - Nadinha.
     -Nem xeque-mate?
     - Não terminamos, hoje ele não quis nem jogar. Estamos na mesma partida há um mês e creio que ele não quer terminá-la.
     _-Vai perder o paciente, a mãe trocou idéia com Dona Olga e disse que o Sr. não estava acertando. Dona Olga insistiu que esperasse, pois o doutor sempre resolvia, ela que gostava de uma terapiazinha mesmo e estava ali a anos e nem pretendia deixá-la; Mesmo com alta.
     - Não sei mais o que tentar... 
     E o pobre homem sumiu pelo corredor.
     Entrei em sua sala e vi a mesinha com o tabuleiro. Arrumei as coisas, recolhi o lixo e as fichas atendidas, fechei as cortinas. Quando voltava, retirei uma das peças brancas, um cavalo, que estava ao lado da cadeira, no chão. Escolhi uma das casas e coloquei a peça. Fechei o consultório silenciosamente.
     Minha quietude durou muitos dias, tentando entender a alma humana. Mantinha uma tristeza vaga e persistente. De todos os casos, esse ardia, porque era incomum, beirava a insolubilidade, num ser que nada tinha vivido ainda, tão pequeno, verdinho, verdinho das depressões cotidianas e dos desprazeres.
     Na quarta-feira que se seguiu, depois do garoto entrar, sua mãe se dirigiu a mim e perguntou quanto devia.
     -Acerte no final do mês.
     -Vou levá-lo a outro lugar, é que você sabe, não está  resolvendo. Estou enlouquecendo! Meu marido não quer mais saber, disse que a culpa é minha, estou desesperada e não sei o que mais fazer.
     - Entendo. A senhora é quem sabe. 
     Enquanto preenchia o cheque, ouvimos de dentro da sala: 
     - Eu disse que não é aí. O cavalo não estava aí. É  na casa h - 5. 
     Rafael gritava, aos berros, urrava, vomitava palavras, altas, sonoras, ecoantes...
     A mãe rasgou o cheque e trocamos um largo sorriso.

A menina com nome

( Para Lola)


Nem nome de música
Muito menos de revista
Eu leio e ouço, apenas
A menina; Lola.

Tantaliza a lente turva
Um olhar de brandura
Intensa e tamanha...
 A doçura; Lola.

Por que ganhar a poesia?
Apenas por um olhar?
É que é digno de maestria
Aquele olhar que sangria
Meu arrevessado dia-a-dia!

Marili de Carvalho Santos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

INSTINTO DE PRESERVAÇÃO DA ALMA ALHEIA

Espero que goste e sirva.
Nossa, que linda você está hoje.
Não, eu juro, eu adorei, inclusive a cor.
Diz que saí e volto logo.
Não, obrigada, mas estava uma delícia.
Gozei.
A papelada está pronta, entretanto...
Desculpe, não pude ligar estava viajando.
Emagreceu, heim!
Sim, já enviei, não recebeu?
Enquanto juntos, sempre te amei.
Você não aparenta a idade que tem.
Li e achei incrível, principalmente aquela parte, qual é mesmo...

TANTALIZAR


ARRASTA O MAR
MASTRO CAÍDO
O SOL QUEIMA
UM CORPO QUE BOIA.

NENHUM TEMA É TÉTRICO PARA A POESIA PUTREFATA

CRÔNICA SEM FIM

  Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...