sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

NADA A DECLAMAR

se não o final do conto
o fim da trégua
o longo afastamento
sem perdão
sem razão de ser
o gozo sem prazer
o amor sem beijo
ao longe, ao longe
o pigarro da tosse
sem o cigarro
o poema sem verso
sem rima, sem nada
a quadra sem graça
o poeta sem vigor
a linha final depois do travessão
que fala, que fala
nada
nada a declamar
se não o ocaso a brilhar
a vírgula singular
a flor que não abriu
o pensamento que não fluiu
a metáfora ruim
sem calma, sem palma
nada a declamar
nada
sem decorar a minha
alma

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CALENDÁRIO

Não é que queira que o tempo passe tão depressa e que as folhas caiam uma a uma, contando os meus dias, os nossos dias, os dias que deixamos de nos ver, os dias que eles deixaram de se falar, também as horas que ficaram de se ver e não se viram, os dias todos nublados que me deixaram dormir e a vocês também, e claro os dias de sol que bateram na minha cara e na sua e naquela cara que não queria sol. Não é que eu, você e eles queiram que os dias passem rápido, porque os dias das crianças demoram muito a chegar e se eu soubesse que os dias eram ligeiros em acontecer eu teria esperado com mais parcimônia e paciência e teria me entregue ao tempo. Não sei mais se quero o tempo passando nas minhas fuças, nas suas e nas daqueles que precisam que ele passe por algum motivo, ou porque querem esquecer da morte, ou porque suas tristezas custam a dobrar o pensamento e alojarem-se no esquecimento, ou porque querem que chegue logo o dia de nascer e casar. Não é que eu queira que esse tempo volte a andar amiúde. Não. Só queria que ele me acompanhasse os passos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

VENTO

E não é que ventou em mim
de um jeito que há
muito não sentia
vento com propriedade e corpo
ventania ia e balançava
minha alma
que toda em calmaria, apenas
o sentia

E não é que ventou em mim
de modo que há tanto
não já queria e bem
sabia que era possível ventar
ventaneira eira e carregava
minha saudade
que tinha cheiro, apenas
da infância

É que ventou em mim
ventanas abertas
assim 
sim
leve e
só.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Novo ano

essa sensação de otimismo
que valsa no ar
é tão comum e tão
esquisita
de tudo que se promete
ficam as ondas puladas e as velas acendidas
e o cheiro da arrebentação
que carrega o frescor
do otimismo
tão latente
agora
perene

terça-feira, 20 de outubro de 2015

INAÇÃO



Faz silêncio e olha, ali pelo buraco da vida. Vê como as pessoas andam se acotovelando, querendo um tanto de atenção daquela outra que é bem querida sabe-se lá por quê? Está na berlinda, meu amigo? Que você faz com essa sua opinião imensa? Trate bem todas elas, as pessoas, e ficarão por ali, na estante da sua vida! Onde é que estão seus amigos? Ou você é um ser social que amontoa amigos do tipo meus amigos? Olha agora ali do lado esquerdo, vê aquele outro grupo? Está vendo como são amistosos e omissos? São tão tradicionais na vida, são tão solitários como aqueles que riem sem parar e que olham de vez em quando pelo buraco de suas vidas rasgadas e solitárias. Vê como se socializam? Agora escuta o que dizem. Tem bastante opinião nisso tudo. Isso é bom, mostra que são humanos. Que pensam. Será que sentem? Ou mentem? Faz silêncio, senão acordam!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

CINEMA MUDO

tenho pensado muito em muita coisa e dessa maneira não poderia escrever algo com pontos e vírgulas e com toda a regra que a gramática me ensinou e ensina até hoje a não ser esse fluxo de coisas e ideias e pensamentos desordenados e confusos que é a minha cabeça e ela projeta tantas coisas que vejo e ouço e faço e também tantas outras que fazem e falam e tudo isso me torna diferente a cada dia porque nessa etapa da vida em que sei que mais velha estou e um pouco mais astuta comigo mesma sei que devo relevar certas posturas e atitudes porque também cá tenho eu um tanto de loucura e rabugice e vontades próprias mas certamente sei que não sou uma pessoa ruim e nem amarga e nem pouco amada e tenho certo que tudo isso melhora bastante a vida de alguém porque tenho muito colo por perto e quem gosta dessa pessoa aqui gosta mesmo sem regras e normas e tenho tido um tanto de dó das pessoas porque vejo um bocado de solidão e carências e maldades e picuinhas e até entendo esse vazio todo e tenho cá para mim de novo que há certas coisas que não mudam nem a pau não mesmo e que eu posso e você pode e eles podem se pintar de dourado e serem as mais agradáveis pessoas que nada fará alguém gostar de você de nós e deles porque há um tanto de doçura em ser inflexível e há também um desejo fidedigno em ter opinião formada e seguir as regras e normas e dessa maneira é que tenho pensado tanto

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

MISSIVA (ou cartinha mesmo)

Gostei do léria, original. 
A idade é isso mesmo, bate e chega sem pedir e traz junto as manias. Mas, vejamos quando eu tiver quase setenta e você estiver com a idade que estou agora, vai ser o quinhão de manias, suas então, piores que minhas, que já estarei gagá e com permissão para insanidades. Enfim caro amigo, caríssimo, custa caro nossa amizade, mantê-la é um turbilhão, nesse mundão que conspira tanto contra-com o perdão da rima paupérrima. 
O cotidiano nos aflige, é só isso. Mas...odeio as adversativas! Estamos será para o que der e vier. Comemoremos a nossa amizade. 
Um brinde aos eternos amigos de antes, de agora e de depois do amanhã!
Um grande abraço
 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MULATA

Mulher ria vadia
Açucarada pela
Melodia mal viva
Do seu coração
Escuta o samba
Da vila, o cordão
Arrasta o tempo
E ensaboa chão
Na melodia ouvia
Repetia o refrão
Açucarada pela
Cantiga mal viva
Do seu coração
Vadia ria a dita

Quer uma oração, benze três vezes com um cordão!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

DESÁGUA

Na nuvem do silêncio de nós dois
Confundi palavra,será-seria minha?
Ou tua n´minha, invejinha, daquele
ou este, só nosso verso.
 
Olhei pelo avesso do amigo
Que vinha do outro lado
Da minha língua, raivinha, daquela
ou esta, palavra que instila.
 
Nós dois, nó no pescoço
Goela sequinha, mais serei
Uma só trova, poetastra, aquela
ou essa, odezinha que esquisita.
 
Na margem do rio de nós dois
Encontrei o curso do silêncio
Um, ou quantos necessários,aquilo
ou isso, que poeminha nos resta.

domingo, 9 de agosto de 2015

UM CONTO QUALQUER

Bastos era um senhor de sessenta e poucos anos que vivia sozinho em um pequeno apartamento do centro da cidade de São Paulo. O único filho morava em outro país e falavam-se poucas vezes durante o ano. Alguns parentes no interior, que a ausência de contato havia guardado na última gaveta da memória qualquer possibilidade de reencontros. Da sua rotina diária, além dos pequenos afazeres de limpeza, manutenção da sua sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba, alimentar os pássaros, sobrava-lhe uma enorme parte do dia para nada fazer.
Bastos era homem comedido, falava pouco e durante toda a vida mediu bem aquilo que lhe saía da boca; entre falar e dar sua opinião preferia calar-se; o que fez com que escutasse a vida toda que era um pau mandado, um nada, um livro sem receitas, um homem vazio... Nunca se importou com isso, não falava porque não valia a pena dizer, somente o que era certo era dito “três pães, por favor,”, não importava dizer algo sobre a coloração dos pães, “nossa, como estão tostados”, já estavam tostados, de que valeria dizê-lo.
Naquela manhã aparava a barba como o costume lhe mandara fazer, com a pequena tesourinha em punho, tirava pequenas lascas dos pelos grisalhos, que caiam sobre o pano metodicamente aberto na pia. Olhava para o seu rosto envelhecido e pensava no transcorrer da sua vida. Não era homem de se revoltar, sua alma era a mãe da resignação, aceitava as coisas, as pessoas, a vida, como aceitava o dia virar noite; os fios ora brancos ora pretos salpicavam o lenço branco junto com uma pequena gota de sangue “que merda!”.
O homem olhava assustado para a imagem do espelho, não pelo corte feito, que era pequeno demais para alguém dar-lhe algum valor, mas seu estupefato olhar era da frase que sua boca havia proferido; não era homem de dizer vilezas, não era homem de falar mal por pouco, nem por muito havia perdido sua linha; nada disso era o que lhe tinha causado o pavor, a voz que lhe saíra da boca não parecia ser sua, aterrorizado não sabia o que fazer, baixou os olhos para tirá-los do espelho e sussurrou baixinho o seu nome, queria escutar-se.
A confirmação do dia anterior veio na hora em que Bastos pediu os três pães e queria os mais brancos porque estava cansado de pães tostados e com gosto de queimados; sua voz agressivamente pedia ao rapaz do balcão que estranhou o pedido, mas agiu como a fala proferida lhe ordenara. Bastos tentou desculpar-se, porém o que lhe saiu pela boca foi que nunca mais haveria de lhe empurrar pães de quinta categoria. Resolveu não mais dizer nada, haveria de fazer-se calar, pegou o saco, pagou e correu para casa, assustado como se estivesse preso em alguém que não era ele.
Em casa defronte ao espelho mirava-se com estranheza e pavor; “está olhando o quê?”, a frase que ele mesmo dissera, fizera-lhe rir a gargalhada mais histericamente possível, só pensava que estaria louco, não tinha coragem de dar nem mais um pio; passou o dia sentado na beirada da cama numa mudez sobre-humana quando se assustou com o tocar estridente do telefone, correu a pegar o fone, mas titubeou, afastou-se, retornou, atendeu; “ah, é você seu ingrato, não telefona há tempo deve precisar de algo, desembucha logo que tenho mais o que fazer!”.
Como diria o ditado: a boca fala e... ele quem paga; ficou Bastos a ouvir o sinal intermitente da ligação interrompida. Passou sua voz então a praguejar as mais absurdas frases, resmungava,contava, lembrava, cantava, assobiava, discursava, orava, discutia, papeava e dialogava consigo mesmo. “Eu penso, eu opino, digo, juro, minto e menciono”. Estava em um estado absolutamente esfuziante, como se sua garganta, ora dantes travada, tivesse desatarraxado num mar de arquixilemas e arquifonemas.
Se a voz dominara o homem ou se ambos haviam se fundido em um só não é coisa para se pensar nesse momento da narrativa porque nada de filosófico há na mudança e o que se é relevante dizer são os fatos, os fios condutores das ações; o caso é que o senhor Bastos estava mudado e nem mesmo sabia onde tudo isso tinha começado, acostumara-se com a nova maneira que a vida lhe impusera com a mesma brandura que se habituara a barbas; agora era ser que cuspia fogo, deixava marca por onde passasse, rasgava todos os verbos, espantava os bichos, encantava e desencantava.
Bastos era um senhor que vivia sozinho em um pequeno apartamento do centro da cidade de São Paulo. O único filho morava em outro país e falavam-se várias vezes durante o ano. Alguns parentes no interior visitavam sempre o homem, que recebia todos calorosamente em longos papos e risadas madrugada a fora, resgatando sempre o que havia guardado na primeira gaveta da memória: lembranças. Da sua rotina diária, além dos pequenos afazeres de limpeza, manutenção da sua sobrevivência, cozinhar algo, aparar a barba, alimentar os pássaros, sobrava-lhe uma enorme parte do dia para conversar, cantar, aconselhar, jogar conversa fora, discutir...


domingo, 2 de agosto de 2015

O FLAGRANTE

  Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha...