quinta-feira, 10 de maio de 2018

PARA VOCÊ DE MIM

não é possível iniciar alguma coisa, da qual nem sei ao certo como dizer, com letras maiúsculas; a escrita nesse momento é sem amarras, porque ela traduz a minha e a sua angústia, e sei que assim como estou cá aqui, você também está, e agora neste instante escrevo por nós, por mim e por você, porque sei que estamos sozinhos a pensar nas nossas incertezas e também sabemos que a falta disso tudo, dessa compreensão do que está havendo é escura e paradoxal, então eu digo para você que é preciso ter uma certa calma e ao te dizer, digo a mim mesmo, assim nos escutamos e partilhamos dessas mesmas dolorosas aflições e agonias que passam em nossa cabeça, na minha e na sua, sei bem como é, sentir-se sozinho e achar que não há um fragmento sequer de amor, de carinho, de compaixão, de troca, de qualquer coisa de que precisamos para nos sentirmos humanizados, porque pensamos, e pensar é doloroso, só sei bem, também, que há que se ter calma, não a calma da estagnação, mas a calma do tempo, que é tão inconstante, porque corre veloz ou tarda, e essa calma eu não tenho, e sei que você não a tem, e também não sei como terminar tudo isso, e sei que você não sabe, sabemos apenas que não há um ponto, há somente um tempo e estamos juntos nele...

EXCERTO


             Todos esses pensamentos nos fazem refletir sobre a nossa prática diária. Como professora e futura psicopedagoga a sensação de impotência e de mudança se confundem num plano paradoxal e angustiante.  O conflito obviamente se traduz num questionamento pessoal do quanto estou fazendo em relação ao que posso fazer. Essa profusão de sentimentos me encaminha a pensar se realmente consigo mudar de forma militante tudo que se aflorou depois de assistir, ler, estudar e pensar. Sei bem que já se passaram por mim muitas pessoas das quais eu consegui de alguma maneira ajudar, dividindo o que sei, o que eu acho que sei e o que gostaria de saber. Porém, não sei se tenho fôlego, a essa altura, de mudar um sistema todo, embora acredite na mudança e tenha práticas diárias que fomentem isso no meu pequeno universo.
            Encerro a análise pensando que se eu escolhi a educação como parte de mim e que ainda acredito em algumas possibilidades de mudança e que sinto que agora já sei alguma coisa, quem sabe não consigo propagar essas ideias em uma nova fase, fazendo o que gosto tanto que é escrever. Quem sabe não escrevo mais sobre tudo isso...quem sabe...

sexta-feira, 13 de abril de 2018

DOÇURA

Aquele pai que sempre quisera ser pai, segurava a filha, que sempre soube que seria sua filha, balançando-a num ritmo suave. Segurava a menina em um dos braços de barriga para baixo, que era para evitar dores de barriga, e enquanto balançava, a menina cantava para si mesma uma melodia sem palavra, apenas o som acalmava a ambos, na doçura da eternidade.

terça-feira, 3 de abril de 2018

DIALÉTICA

Se tenho dúvidas?
todas
sempre.

Há em mim a maior indecisão
não sei quem sou
não sei quem você é
muito menos eles, muito menos eles
refuto todos os seres
mais ainda os ininteligíveis
refuto a mim mesma
oscilo feito pêndulo
entre querer e não querer
sentir ou não sentir
tenho todas as dúvidas possíveis
e há um certo conforto em ter dúvidas
já que a vida é provável
os sentidos são possíveis
e os sentires confusos

Se tenho verdades?
todas
nem sempre.

Há na verdade uma indecisão de mentira
uma aparência de certeza
um gosto que não se firma 
e ainda, meu deus
uma opinião mal formada
que teimosa, que teimosa
que oscila para lá e para cá
entre dizer e não dizer
ferir ou não ferir
refuto a verdade e mais que tudo refuto a mentira
deles, de mim e principalmente deles, deles
e há um certo conforto em mentir
já que a vida é um passatempo
e começa a nos tirar a graça
desde logo cedo



terça-feira, 27 de março de 2018

CATACLISMO


MAIOR DEVASTAÇÃO
NÃO HÁ
DO QUE VIVER

SE O JULGO DE SENTIR
ESTÁ EM EXTINÇÃO
HÁ QUE  SE VER,
COM RESPEITO À ORTOÉPIA
CATACLISMAS D' ALMAS

NA MAIS REPLETA
E PROFUNDA
SOLIDÃO

sexta-feira, 23 de março de 2018

POEMA DA MÃE

ME DÁ TUA MÃO
SEGUE POR AQUI
EU TENHO CERTEZA
DESSE CAMINHO
SEI QUE É MAIS BONITO
NÃO CHORA NÃO
ME DÁ TUA MÃO
FILHO
VEM POR AQUI
EU QUASE TENHO CERTEZA DE QUE É O CAMINHO CERTO
VEM MEU AMOR
ME DÁ TEU PERDÃO
NÃO CHORA MAIS TANTO NÃO
EU NÃO SEI SE ESSE É O CAMINHO
PERDÃO
PERDÃO
SOLTA DA MINHA MÃO
SEGUE TEU CAMINHO
VÃO

MEIA CRÔNICA DA TRISTEZA

Em passos saltadinhos o pequeno ser atravessa o tapete e tenta acalçar o brinquedo desejado, brinca na sua solidão e na cabeça pequena nada pensa. O mesmo pequeno ser engatinha e chora de fome, faz coisa errada e apanha na mão errada que pegou o que não devia. O ser pequeno cresce e tem tanta coisa agora para pensar que ele esqueceu que foi um ser que só brincava na sua solidão de mente vazia. Crescer é tão triste!

sábado, 27 de janeiro de 2018

CRÔNICA DO ACONCHEGO

Chegou em casa e o cansaço era tamanho que não teve tempo de olhar para nada, entrou no banho para que toda água levasse embora a tristeza, a raiva e a angústia que sentia, tudo era tão desolador, o caminhar em passos lerdos e pesados, a vida sem sentido, sem dinheiro, sem esperança, como se vive sem esperança, como se vive sem poder ter algo de certo, uma coisinha sequer de certeza, de comer, de pagar, de gastar, certeza de que vai ser melhor, nada é tão certo como o banho, o esfregar de um lado ao outro, o banho há de ser rápido, assim como tudo nessa vida que passa rápido quando deveria ser devagar e os sorrisos nem se veem de tão ligeiros, secou, escovou, comeu o que tinha e sentou na minúscula sacada e viu o céu da noite cinza da cidade cinza, e só pensava que era tão ruim, e pensou por um instante do porquê disso tudo, e a borboleta feia pousou na grade da sacada, e a borboleta marrom de asas enormes e feias tinham olhos para ele, batiam algumas vezes e paravam, ele enxotou o bicho feio, que saiu e voltou, e pousou na sua mão, e com nojo empurrou para longe, e bateu, e o inseto grande, bateu asa e parou no chão, compassada as asas batiam em cadência leve, e a borboleta feia olhava para ele e agora ele olhava para ela, desistiram um do outro...ela se foi pela noite, ele deitou e se foi pelo sonho.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MELHOR NÃO

Reflexões sobre a incapacidade humana:


é melhor não ir;
mias fácil não argumentar;
não enfrentar coisa alguma;
não ter que decidir;
deixar que te digam o que fazer;
que te levem;
que te lavem;
bem melhor não opinar;
não escolher;
o que diriam de mim?
o que pensam de nós?
faça por mim;
eu vou com todos;
eu vou com você;
vai com as outras;
não diga nada;
para que pensar?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

CRONIQUINHA PARA MARIA

Maria que fez Amanda que fez lentilha que fez amigos no Iguaçu e fez da lembrança em mim sinônimo da bondade.

APONTAMENTOS ou primeiro texto de 2018

a passagem de Ano Novo pode trazer surpresas interessantes:

conhecer gente que parece antiga e conhecida
molhar os pés na esperança da água salgada
comer abusadamente na certeza de depois passar fome
abraçar fazendo promessas
beber o último gole e fumar o derradeiro cigarro
resolver que vai ser tudo diferente
jurar que nunca mais
jogar fora suas pequenas angústias ao vento que as levará
prontamente ceder a passagem
olhar os fogos coloridos e ensurdecer-se
falar baixo a si mesmo
rezar
enterrar dinheiro pouco
acender uma vela
trocar as calcinhas velhas por novas
beijar um estranho
brindar com o desconhecido e contar sua vida para ele
contar sete bagos de uvas
cantar aquela canção do Roberto
dizer que ama
fazer a contagem regressiva e saudar o amanhã
chorar
falar da vida dos outros e reparar naquela roupa
estar feliz
ser feliz
resolver
relutar
permitir
ir
Vai ser bom, não vai?



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

PRAZERES

Como 
Como você
Como você está
Como você está nesta
Como você está nesta manhã
Como você está nesta manhã ensolarada
Como você está nesta manhã ensolarada e azul?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

ESQUINA

na dúvida,
mantenha-se

na cegueira
estúpida
daquela frase
diz-se
o que
não quer
esquiva-se
foi
senão
então
foge dali
que o amanhecer chega logo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Como ser um bom professor?

Perguntaram-me o que seria um bom professor. Assim de chofre, titubeei e não soube ao certo responder, disse um "sei lá", um outro monte de frases feitas, " uma pessoa com boa formação", e resumindo não respondi. Não sei dizer ao certo porque não soube responder a uma pergunta aparentemente óbvia, afinal sou professora. Mas, o fato é que aquela pergunta ficou ecoando em meus pensamentos e mais, a ausência de uma resposta imediata, ou mesmo de uma resposta bem elaborada, também geraram um enorme mal estar em mim. E depois de muito pensar, não cheguei ainda a uma conclusão; não sei dizer o que é ser um bom professor, talvez porque não tenha mesmo uma resposta, ou talvez porque não seja tão simples assim. Um bom professor não se resume em uma resposta, em um diploma, e é claro que há necessidade de tudo isso, formação mais estudo mais capacitação mais um montão de coisas que o tornam professor, porém, não é só isso. Tem algo de maior, que é subjetivo, diante de tantas objetividades de uma aula, de um conteúdo, de uma lousa. Tem algo muito maior que é o ver além, ouvir além, porque tem um outro ali que te olha querendo que você dê conta de explicar para ele o mundo todo e até quem ele é. Tem algo muito maior que não se explica, que se sente. Saberia eu dizer o nome de vários bons professores, contudo não saberia dizer o motivo, porque o que me faz lembrar deles talvez não tenha explicação, apenas sentimentos bons.

CALÇO

corpo mole
alma vazia
solidão
qual o calço do mundo?
seria o amor?
então...

O FLAGRANTE

  Enquanto duas senhoras conversavam sobre a maternidade, uma dizia que seu leite havia empedrado, e a outra ensinava como fazer uma ordenha...