Há um tanto de várias mulheres
que se misturam em mim
se o olhar de ressaca não é pela perda
é um tanto pelo marasmo da vida
não é que queira ver o pôr do sol
ou ainda trocar olhares com búfalos
há mais de mim que não se entende e
o cotidiano me aflige aos montes e não quero ficar calada
não há nada de depressivo a ponto de
me jogar diante de uma estrela
não é a hora, minha hora, meu instante
tenho muito a revelar
tenho a velhice por vir, atrasada nas lembranças de minha infância feliz
que se surpreende nas memórias de como me tornei
essa mulher
não posso ficar calada e tenho tido menos coragem em dizer
porque há também um complicado ou isto ou aquilo
que me angustia
porque o sentimento traz tanto pensar em tudo?
não sei responder ainda
tenho dúvidas da mulher que me tornei
tenho medo também da senhora que virá daqui a pouco
queria os poderes das mulheres maravilhas
das atrizes e amantes e escritoras e cientistas e lavadeiras e donas das casas
queria ter um pouco delas em mim
um tanto além do que apenas sou e do muito que queria ainda ser
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
EQUIVALÊNCIA (Para Guilherme)
Esse é o primeiro texto de 2017. Não sabia ao certo o que escrever e também estava sem grandes vontades, já que passei parte do ano passado tentando escrever e algo parecia que não se encaixava, ora tinha tema e nada de desejo, e assim não escrevia nada novo...
O fato é que para tudo nessa vida há que se ter a troca, e assim nessa toada percebi que nem sempre que damos algo em troca, recebemos de valor igual outro algo. A lei da equivalência deveria ser de fato algo concreto, mas não é. Nem sempre o que perdemos volta, nem sempre o que parte retorna, e também não há certeza se tudo aquilo que amamos, da mesma forma nos amará. Embora saiba que longe de ser igual, a equivalência pressupõe uma relação mútua, cuja troca só acontece se ambas as partes acreditarem que aquilo é verdade, assim sendo a equivalência só reside no sentimento. O amor é talvez a única forma que transite na lei da equivalência e nem há garantias que ele resistirá por tanto, tanto tempo.
Essa é primeira tentativa de escrever algo novo. Não sei que preço terei que pagar ao longo desse ano na esperança de que consiga escrever novas coisas; tenho tido menos coragem, nenos vontade, imaginação, inspiração. Talvez a troca seja entre a escritora que dormita em mim e a pessoa que vê a impossibilidade de continuar a escrever, ambas transitam na equivalência, só não sei qual delas é a verdade.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
URDIDURAS- parte final
A vida é um capítulo inacabado, porque nossas
lembranças ficam ocupando a memória de quem fica.
A trama inacabada de nossas personagens foi colocada no tear
do acaso. Não se pode dar um fim para isso. Os fios da vida dos dois, ela e
ele, serão tecidos ou não pelo tempo, pelo seu tempo, na ação de urdir, entre
os dedos de quem faz a trama.
URDIDURAS-Um conto inacabado
Capítulo 9
A
estradinha de terra ainda cheirava o úmido orvalho da noite anterior. Antônio
ia por ela mais pensativo que de costume, pois a visita do filho, a imagem das
folhas secas e todos os acontecimentos últimos, haviam tomado uma forma
estranha em sua cabeça. Forma de nuvem
em pequenas bolas, que ora dispersavam, ora eram para chuva.
Na
cancela, que abria e fechava, um hóspede puxou certa conversa enquanto tentava
um entrosamento com o cão bege. Perguntou se sempre morou na região, se tinha
filhos, se o cão tinha nome. Investigou o que queria e se foi. Mas o estopim
daquela conversa não foram as perguntas sabatinadas feitas ao homem da cancela
e sim, como Antônio se sentiu ao respondê-las. Se antes sua cabeça girava em
turbilhões, agora eram imensas tempestades de dúvidas, desejos, e vontades
estranhas.
Desejou
ter sido jardineiro, e relembrou todas as plantinhas que haviam sido enterradas
no quintal de sua casa. A mãe chegava com a muda no saco preto e entregava para
o menino, que já não era mais ele, o moleque tirava com o maior cuidado, porque
havia aprendido com a mãe essa delicadeza do plantio, arranhava os dedos na
terra e fazia o buraco. Guardava a raiz lá dentro e ajeitava a terra ao lado,
em montinhos. Sentava ao lado e ficava olhando para a mudinha verde e quieta.
Ficava a manhã toda ali, até o pai chegar com um safanão a lhe pedir que
fizesse alguma coisa ao invés de ficar ali plantado.
Na
volta, pela mesma estrada de tantos anos, de imensas idas e vindas, de tanta
poeira levantada o homem sentiu uma profunda e irrefutável sensação de mudança.
Como se quisesse trafegar em novas terras e caminhar por outros rumos. Plantar
novas mudas. E assim, desses rompantes é que surgem as ações que nos levam para
lá ou para cá. São essas dúvidas somadas às angústias da alma que nos fazem
agir. Não estava ainda bem certo o que o homem faria, porém alguma coisa ia
mudar. O cão bege vinha ao seu lado no mesmo compasso de sempre.
URDIDURAS- Um conto inacabado
Capítulo 8
Acordou
do sonho bom que há tanto tempo não lhe faziam as noites mal dormidas. Sabia
apenas que era bom porque o coração lhe dizia isso, mas não se lembrava de
parte alguma. Fez o café em silêncio e tentou coordenar as ideias para ter a
certeza de que continuaria com tudo que havia determinado para si mesma de que
faria. Sim. Fez o café e esquentou o leite. Fez mais barulho que o normal e o
homem acordou.
Joana
esperou que reclamasse e assim que o marido botou cara na sua, disse que estava
grávida. Não estava. Disse segunda vez ao marido que estava grávida, que
finalmente ele seria pai, disse que ainda era começo, que não sangrava havia
pouco tempo. O marido perguntou se ela estava certa e se estava passando bem.
Ela respondeu que sim e que não, enjoava. Disse tudo isso com tanta certeza que
a mentira virou quase verdade na palavra da mulher. O marido abriu a boca e ia
dizer qualquer coisa. Apenas chorou, jurou, chorou, jurou que não batia mais em
nem um fio do cabelo dela, e chorou. Nem viu que a mulher já havia saído para o
trabalho.
Sacolejando
no ônibus os pensamentos de Joana iam ao infinito. Sentia uma combinação
estranha de euforia e tristeza sem entender ao certo aonde tudo isso a levaria.
Só conseguia lembrar-se de que não apanharia mais e essa era toda a certeza que
tinha tal qual a mesma certeza, que se não passar o pano seco sobre o
lustra-móveis a madeira não fica brilhando. O tempo era mais largo e
esperançoso. Era isso: o tempo havia lhe emprestado a possibilidade de um
amanhã.
No
almoço comeu tanto que não conseguia espanar nenhum lustre. A colega de serviço
perguntou se estava bem e ela disse que não porque tinha comido demais. Nessa
noite antes do marido chegar, a mulher comeu em casa tudo que havia. Esperou o
marido chegar para vomitar na sala, quase aos pés dele, que ao invés de bravo,
achou graça no vômito. Ela disse que limpava, ele disse que fosse descansar,
que ele mesmo limpava. Disse que o filho era só dele e dos brabos igual ao pai.
Não apanhou a Joana mais, apenas sonhou com um menino que nem existia, porém
com uma cara igual a dela.
URDIDURAS-Um conto inacabado
Capítulo 7
Passou
a manhã lembrando-se da cena que imaginara e sentiu-se muito mal. Era homem de
matar formigas, mas quem diria matar a sua mulher, inda mais com folhas secas.
Ficou por ali entre uma cancela aberta e outra, comanda preenchida com letra e
número, pensando em tudo. Pensou no filho, se estaria ainda por lá, pensou
também no jardim de pequenas árvores arredondadas por ele com uma imensa
tesoura de poda. Eram tantos pensares que olhou certa hora para o cão bege que
roía um graveto de pau e tentou concentrar-se apenas no olhar, no som do ranger
de dentes do cão.
Teve
a fiel companhia canina na volta para casa. A fidelidade de um cão é
inexplicável, gratuita, dava-lhe comida isso é verdade, mas eram restos do que
lhe sobrava de jantar, e isso não tinha juízo para um cão, nem questionava se
era resto, era algo dado, assim dividido, e um cão não pensa nessas coisas, cão
aceitava a dádiva e balançava o rabo feliz. Vinham os dois no mesmo andar
cadenciado que levantava apenas uma pequenina poeira. De longe viu o filho na
varanda da casa ao lado da mãe. Tinham rostos parecidos até mais por
sentimentos mútuos que guardavam, do que pelo parentesco que os unia. Ao
perceberem que o homem Antônio chegava, entraram.
Sentou-se
na escada e montou um cigarro de palha. Picou o fumo em pequenos pedaços e
enrolou devagar. Ouviu o rapaz se despedir da mãe e dizer que depositava
dinheiro para ela, que recusou e disse que estava bem, havia ganhado muito nas
faxinas e que não carecia. Parou em frente ao pai, despediu-se com um abano de
cabeça fraco e frouxo. O cão bege não latia porque já se sabe que não late a
quem parte, pois sabe o cão que quem parte já se vai tarde.
A
mulher na cozinha trazia um misto de tristeza e alegria estampado no rosto.
Antônio perguntou se o rapaz estava bem e a mulher respondeu que graças a deus
estava sim. Não havia puxado ao homem, era moço de opiniões claras e definidas
e sabia bem o que queria da vida, que não era um ser que abria e fechava
cancelas, a esperar da vida sabe-se lá o quê. A imagem da mulher cheia de
folhas secas na boca veio á mente do homem, que tratou de pegar uma banana e
descascá-la para depois enfiar bocados em sua própria boca.
sábado, 3 de dezembro de 2016
URDIDURAS- Um conto inacabado
Capítulo 6
O
homem acordou com a mulher dizendo seu nome e gritando que tinha gente lá fora
e que os cachorros estavam latindo. O homem que não prestava para nada foi ver
o que era. Era o filho. A mulher veio assustada e sorridente abraçar o moço,
que passou pelo pai sem sequer olhar para seu rosto. Aprendeu com a mãe que o
pai era um vagabundo e também achava isso, pois o que uma mãe ensina vale para
a vida toda, mesmo que o ensinar seja torto.
Saiu
da sala, porém ficou na cozinha para ver se escutava a voz do filho que não via
há tempos. Os dois conversavam baixo, mesmo que de propósito, para não serem
ouvidos. Escutou algumas interjeições, “nossa”, “jura”, “ah”; ouviu também
incredulidades, “verdade”, “mentira”, “sério”, “não acredito”, que eram
pronunciadas pela mãe em um tom mais alto, talvez para causar-lhe curiosidade,
que o homem decerto ficou, mas não fez nada para saná-la.
Antônio
pensou que era bom de ir trabalhar. Sentia vontade de abraçar o moço, mas não
sentia vontade de não ser abraçado. Decidiu ir para o hotel e deixar que os
dois matassem a saudade. Enquanto caminhava pela estrada de terra, lembrou-se,
não se sabe ao certo do motivo, de uma frase de uma de suas avós, a do lado
materno, a frase dita quase como um sopro em seu ouvido “case-se com alguém que
você goste de conversar”.
O
cão bege veio ao seu encontro abanando o rabo longo para lá e para cá. Lambeu
de leve a mão do homem e ganhou um toque sutil na cabeça. Os dois vinham lado a
lado caminhando pela estradinha seca. No que o cão bege pensava não se sabia,
mas o homem matutava palavra de palavra, que o saudosismo do passado havia
plantado em sua mente. O cão preto estava parado em frente à cancela do hotel,
sentado nas patas traseiras e latiu para o cão bege, que assim como o homem,
nem deram sentido.
Não
costumava pensar em grandes coisas, porque a mesmice de sua vida o transformara
em um ser unilateral, tinha olhos apenas para o básico e o cotidiano, tinha
sentidos e sentimentos para o que era casual, não ficava contemplando o
pensamento, embora sem se aperceber passava o dia pensando nas coisas, nos
jardins e no óbvio. “Case-se com alguém que você goste de conversar”. Essa
frase faria o homem meditar por todo o dia sem saber ao certo o que ela
significava. No fundo, enquanto achava que não pensava, o homem Antônio ia se
modificando.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
URDIDURAS- Um conto inacabado
Capítulo 5
Acordou
assustada e com medo, pensou que estava apanhando, mas não o homem continuava
imóvel no sofá, olhou devagar e desejou que não respirasse, mas a coberta caiu
e mais que depressa ela passou a mão nas coisas e rumou para o trabalho. Nesse
dia chegou cinco para as sete. E pensou que hoje era dia de lustrar as escadas
e isso lhe daria muito trabalho. A outra mulher da faxina que a chamava de
amiga perguntou se ela estava melhor da queda e das dores no olho. E ela disse
que sim e que sim.
Durante
a faxina da escada a mulher teve uma ideia tão estranha que não conseguia mais
lustrar um corrimão sequer. Quando uma boa ideia surge, que parece boa mesmo,
os miolos ficam a todo vapor e parece que o corpo não responde, e a ideia fica
balançando feito uma bola na frente da cesta, girando para cair, piscando em
alerta para que não se perca nenhum fragmento dela. Joana. Ouviu seu nome ao
longe. Fazia tempo que não ouvia nome seu pronunciado. A amiga da faxina
perguntou se ela estava bem, pois ia caindo da escada novamente, e aquela
mentira do passado quase vira verdade no presente.
Não
conseguiu responder Joana. Abanou as mãos em sinais de que estava tudo certo.
Foi para o almoço e pediu arroz e feijão, porque por mais que hoje fosse um dia
para se comemorar, já havia gastado metade de seus vales e era preciso esperar
mais de metade do mês. Enquanto comia, remoia ideia junto. Engolia ideia boa a
cada gole, a cada garfada. Não sentia prazer havia tanto tempo que aquela
sensação deixou-lhe confusa e constrangida.
Ficou
toda tarde em devaneios. Aquilo tudo era imenso e assustador, porém parecia a
coisa certa a se fazer. Na saída pensou em como faria para levar sua ideia
adiante. Pensou em cada detalhe. Parou na praça e ficou em tamanho êxtase que
não conseguia se conter. Por que não havia pensado nisso antes? As perguntas e
conclusões ela não tinha. Só tinha certeza de que faria isso mesmo e que era a
coisa certa a se fazer. Não sabia traçar em sua cabeça os motivos e talvez
naquele momento nada disso importava mais.
Naquela
noite apanhou um pouco. Levou dois socos, um no estômago e o outro pegou no
braço. Mas ela estava tão ausente que o homem estranhou de bater em uma mulher
que tinha o olhar diferente do que ele acostumado estava e não sabia como
avaliar, não sabia o que fazer. O bater parou. O homem ficou tão confuso que
decidiu ir dormir. A mulher também decidiu ir dormir, só que naquela noite ela
conseguiu sonhar, ainda bem.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
URDIDURAS-Um conto inacabado
Capítulo 4
Ás
sete em ponto a mulher que apanhava pegou seu pano de lustrar e decidiu que
hoje passaria apenas o óleo de peroba nas peças de madeira. Queria não pensar
na noite anterior e também não queria relembrar do sonho macabro que havia
tido. A colega de faxina queria por que queria puxar o assunto, especular do
tombo, do olho roxo, e acabou por contar que a vizinha dela apanhava do marido.
Queria por que queria arrancar algo, desconfiada que talvez estivesse. Mas da
boca da mulher ouviu mais uma mentira, como igual a outra e assim duas mentiras
iguais, viram uma verdade incontestável.
Terminou
de lustrar um piano e teve vontade de apertar uma tecla branca e outra que
estava ao lado preta, todavia não o fez. Faltou-lhe coragem de apertar a tecla
e ouvir o som. Faltou-lhe a mesma coragem que faltava em sua vida. Era hora do
almoço e pensou que podia comer uma empada de camarão. O preço da empada era o
mesmo do prato com arroz e feijão e frango e farofa, mas valia a pena comer
apenas uma empada de camarão. Tentou tirar o cheiro das mãos para que ele não
se confundisse com o cheiro divino do camarão, porém não conseguiu. A empada
desceu lisa pela garganta e a mulher sentiu-se feliz.
Não
importava se o dia terminaria como tantos outros dias estavam terminando, ela
hoje estava um pouco feliz, havia guardado o gosto do camarão e da massa que
havia derretido em sua boca. Na volta lembrou- se do sonho, porque quando
alguém estando a nos levar, os pensamentos surgem mais fáceis e mais ligeiros.
Teve um tanto de medo. Teve um bocado de medo. Em casa o marido não estava e a
mulher deu graças a Deus por não ter que apanhar naquele momento.
Deixou
a comida pronta e por um instante pensou que podia colocar vidro quebrado na
farinha, pensou se ele podia engolir e morrer aos poucos, porque o vidro
cortaria devagar o estômago, e não conseguiria vomitar, e ele ia caindo aos poucos...
Interrompida foi pelo homem que chegou bêbado e ela pensou que era seu dia de sorte
mesmo, empada de camarão, estando bêbado não batia nela, batia sóbrio porque
ele era lúcido na sua crueldade, bêbado ela até achava que o homem era
simpático.
O
homem chorou quando olhou para ela e perguntou porquê era que não haviam de ter
um filho, pediu perdão por bater nela, mas disse que era merecido porque ela
não era mulher para lhe dar um filho, e resmungou que se batia era para ela
aprender, porque na vida só se aprende apanhando, ele tinha apanhado e
aprendido tudo e que então ela só podia apanhar até aprender. Sim era isso. E o
homem ficou lá estendido no sofá, e chorou e adormeceu.
A
mulher olhava para ele e sentia-se aliviada por toda a sorte que havia tido
naquela noite, pensou também que ela era ruim, que ainda bem que não tinha
vindo filho ao mundo, pensou no vidro na comida, na faca, no sonho, no piano,
no óleo de peroba, na empada. Sentia-se tão feliz, mas não conseguia sorrir.
Apagou as luzes. Cobriu de coberta o homem no sofá e foi dormir. Naquela noite
não sonhou.
domingo, 27 de novembro de 2016
URDIDURAS- Um conto inacabado
Capitulo 3
O
dono do hotel veio ter com ele uma prosa. Disse a mesma coisa de sempre,
perguntou do filho e finalmente revelou o motivo da ida, além de abrir e fechar
as cancelas deveria agora anotar as placas dos carros que entravam e saiam, num
papel, que o dono chamou de comanda. O homem apenas concordou e aceitou. O que
um funcionário deve sempre fazer é aceitar e não perguntar, apenas fazer. O
dono perguntou se ele saberia fazer isso, e se precisava de algum auxílio e o
homem disse que sim e que não.
Despedidas
feitas, era somente isso mesmo, deixou os blocos de papel e uma caneta
esferográfica. Fazia tanto tempo que não escrevia que teve um tanto de receio
de não saber fazer os números e as letras. Um carro chegou e ele anotou a
placa. A mulher do dono disse que a placa dela não precisava ser anotada e ele
riu e amassou o primeiro papel. Ficou nervoso e aliviado, já que não sabia se
havia anotado certo, tanta letra e tanto número. Fechou a cancela e ficou
ansioso para ter outro carro. O dia passou assim sentado e pensando nos jardins
formados por letras e desenhos. Não veio carro.
No
fim de tarde ia voltando para casa pensando que tudo aquilo que tinha
acontecido podia mudar algo em sua vida. Pensou que a mulher podia sentir certo
orgulho dele em sua nova função. O homem se apegou na ideia e sentiu um pouco
de felicidade nisso tudo; o cão bege vinha mais feliz também como o de costume
e ambos pararam no bar da vila. Contou para o dono do bar a nova função e o
velho achou que era para o hotel ter mais controle e segurança. Devia ser. Nem
tinha pensado nisso.
A
mulher riu histericamente. Não acreditava no que tinha ouvido do homem. Acertou
que ele era mesmo um idiota, um velho idiota. Se fosse uma promoção, salário a
mais, até que ela não gargalharia, mas isso. Era de fato o fim dos tempos para
ela, chamou de inútil, de pau mandado e covarde. Disse que nada era mais
humilhante que abrir e fechar cancelas, que ela sim era alguém de valor, limpava
a casa das madames, ganhava um mundo a mais que ele, ela sim punha a comida
ali, a casa era dela, a televisão fora comprada por ela, a vida dele era paga
por ela.
O
homem foi caminhar e pensou em quem era. Não conseguiu elaborar pensamentos, ia
triste e tinha raiva. Sempre foi um tolo, apanhava de todos, apanhou tanto do
pai, dos irmãos e depois ia matar formigas, porque era o que podia ser feito
para espantar o ódio. Não era de bater em nada. Tinha o mesmo tino de sua mãe.
Era bom o homem, e não conseguia sentir vontade de fazer nada do que parecia
errado; não tinha fé, não tinha crença, era tão mole e bobo que ninguém o
tirava de seu autismo pessoal. Era bom o homem, era como o cão bege, que ia
feliz quando recebia um toque de chega para lá ou um cafuné na orelha. Tanto
fazia.
sábado, 26 de novembro de 2016
URDIDURAS - Um conto inacabado
Capítulo 2
Homem
alto, queimado pelo sol apenas nas faces e do cotovelo para baixo, pois era o
que ficava exposto, enquanto trabalhava. O cabelo era cortado na tesoura por
ele mesmo. Ficava bem sentado quase que o dia todo, guardando a cancela do
hotel meio fazenda, quase sítio. Abria a cancela e fechava a cancela. Abria e
fechava em um movimento tão conhecido como era o dia acabar para chegar à
noite.
O
cachorro preto e o bege latiam sincronizados para quem vinha; o chegar era mais
difícil. Não latiam para quem partia, já iam mesmo, tanto fazia latir para quem
parte, nem veriam mais aquelas fuças de hóspedes. E a cancela era aberta pelo
homem queimado pelo sol. Passava as horas pensando. Respondia bom dia, boa
tarde para quem passasse. Chegar em casa era tão fácil quanto sair. Caminhava
meia hora antes do fim da tarde, ia devagar para não chegar tão logo.
Sempre
ouvia que era um vagabundo, era mesmo um vagabundo, que não almejava nada na
vida, que só sabe abrir e fechar cancelas. Que se há de fazer quando não se
tinha estudo, até o primário. Não era homem que prestasse. E a mulher repetia
todo dia, nos últimos cinco anos estava muito pior, dia sim dia não. O único
filho do casal foi-se para capital, tinha feito bem, assim não saia igual ao
pai. Ouviu e foi alimentar o cão preto e o bege com as sobras do jantar.
Não
sentia mais nada pela mulher. Não lhe tinha mais nada, além de ódio, nem sabia
se era isso mesmo. Na varandinha de fora da casa pensava num imenso jardim. As
arvorezinhas eram todas redondas, pequenas bolas que eram aparadas por ele,
folha por folha, bólides perfeitas, nada fora do lugar. E seu pensamento varria
as imagens nas copas baixas e verdinhas.
Naquela madrugada, imaginou uma cena, que
havia brotado junto aos seus pensamentos, que enchia a boca da mulher de folhas
secas. Quanto mais ela falava, mais lhe socava as folhas, ela ia cuspindo e
engasgando, e ele não conseguia parar de colocar as folhas. Assustou com a
mulher gritando para ele vir dormir logo, porque amanhã tinha que ir fazer nada
de novo. Nessa noite ele demorou mais para ir dormir.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
URDIDURAS - Um conto inacabado
Capítulo 1
Mulher
de trinta anos, aparentando quase os quarenta, cabelos duramente crespos, corpo
magro e gélido, murcho, como um balão depois de estourado, olhos curvos
acentuadamente castanhos e brilhosos não se sabem os porquês. Personagem da
vida cotidiana, da cidade, da comunidade em que vive, com o homem que o destino
lhe reservou, também não se sabe o porquê.
Nas
suas cenas rotineiras, acorda ás cinco e dez da madrugada, para que se tudo
correr como o de costume, chegar ao lugar de ofício sete em ponto. No trajeto,
essa mulher não pensa em nada. Observa a paisagem como se nunca tivesse passado
as vistas, inédita e estranhamente perdida. Não se lembra do dia anterior,
porque lhe ensinara a vida que é preciso vivê-los assim um a um, sem certezas
de nada, como a um remédio que não se sabe se a gota cairá ou não.
O
limpar dos pisos, das escadas e corrimões eram feitos cada dia de uma maneira
diferente para que nada fosse igual. O lustra móveis era enjoativo, e o cheiro
impregnado em suas mãos não saía. Outra coadjuvante da faxina perguntou para a
moça o que era o olho roxo e inchado e como àquilo não deveria fazer parte do
script da sua vida, respondeu suavemente que caíra da escada, lustrara demais
os pisos e mentir era tão fácil e rápido como lustrar.
Apanhava
dia sim dia não. Dependendo da vontade do homem que o destino tinha lhe
reservado e da sorte apanhava apenas uma vez na semana. E também assim, uma vez
na semana, gastava no restaurante do prédio um dos seus vales-alimentação,
separadamente guardados pela mentira e comia o que era somente o prazer, seu
pequeno e único prazer, porque já se sabe que é preciso deixar que um dia corra
de cada vez, como o cavalo que corre na sua raia, sem pensar em nada, apenas
esperando a chegada final.
Se
na ida não pensava em nada, na volta era diferente. Pensava como terminaria o
seu dia. Não sentia mais medo, porque já havia passado dessa fase, a do terror
também, a da tristeza, da raiva e não se sabe por qual razão encontrava-se na
resignação. Não da fé. Nem pensava mais em Deus, porque não mais adiantava
pensar nele. A resignação era da certeza, da real, certa e fatídica situação
que lhe esperava. A mesma certeza como o cheiro impregnava suas mãos.
Naquela
noite apanhou. Chorou e dormiu. Sonhou que matava o homem que o destino lhe
reservou com uma faca afiada. Com o corpo dele amolecido em sua frente ela
limpava o sangue com o paninho de lustrar para depois embrulhá-lo no lençol. O
corpo sumia de repente. No sonho, na cena seguinte, ela saía caminhando tão
livre que o medo era forte e intenso. No restaurante do prédio ela pedia o
prato mais caro e o doce mais doce que tinha.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
terça-feira, 22 de novembro de 2016
EXTERIOR
ESTAVA FORA DE MIM
INTERNACIONALMENTE FORA
ALUCINADA E CONVEXA
O QUE DE MIM FORA
AO AVESSO DO AVESSO AO AVESSO
QUEM SOU EU NO EXTERIOR DE MIM?
INTERNACIONALMENTE FORA
ALUCINADA E CONVEXA
O QUE DE MIM FORA
AO AVESSO DO AVESSO AO AVESSO
QUEM SOU EU NO EXTERIOR DE MIM?
terça-feira, 8 de novembro de 2016
INTERIOR
O melhor disso que é
viver são as delicadezas. Se, estão tão raras é de esperar espanto em não
percebê-las. Ouvir é um problema. Mais
difícil ainda é ouvir um agrado, não aquele esperado que seja talvez o agrado
advindo da ação feita para ouvir um obrigado, mas aquele gratuito, deixado
assim pelo lado mais humano do ser, produzido pela bondade, pela admiração, caído
à consciência -como folha ao vento- despercebido da intenção porque é a delicadeza
pura. Ouvir é um desafio. Não se foi criado para receber uma gratidão, menos
ainda em fazê-la. Assim, quando o falar torna-se toda a intenção do ser em
produzir o efeito desejado, a delicadeza espera dentro de nós, o momento certo
para saltar, sem que o meu eu a perceba.
Assinar:
Postagens (Atom)
CRÔNICA SEM FIM
Na sessão de terapia... — Tenho pensado muito em o quanto sou super sensível para várias coisas e isto está me matando; fico pensando em...
-
sem conseguir escrever alguma coisa de valor poético, metafísico, revolucionário, quântico, sem conseguir escrever algo que te faça se apaix...
-
No final das contas, passamos o dia todo a tentar sublimar as pequenas avarias que a vida nos proporciona. Isso gasta um tempo enorme e ...
-
Mote: Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos. (Saramago em As pequenas memórias) Qual alma não vacila? Oscila.....