Na manhã seguinte Amélia levantou-se e sentiu uma vontade infinita de trazer o tempo de volta. Resmungava consigo, lamentava sua falta de respeito, responsabilidade e culpa. Sim, a culpa e o arrependimento eram corrosivos. Imaginou Gomes no balcão e sentiu um medo maior ainda de perder o único fiozinho de felicidade que a vida lhe propusera. Cuspiu a pasta de dentes com raiva tamanha que respingaram no espelho. Não quis olhar para aquela mulher covarde.
Na manhã seguinte Gomes levantou-se e sentiu uma vontade infinita de ver Maria Amélia. Não entendia o motivo real dessa obsessão. Gostava tanto daqueles olhos tristes e apagados. Talvez o desejo de vê-los acesos e vivazes fosse o intento. Seu jeito intemerato, contido, controlado deixava-o mais curioso e envolvido. Espalhou espuma de barbear no rosto mal dormido e jogou fora a barba passada. Queria olhar aquela mulher novamente.
Arrumaram-se e decididos saíram pela manhã chuvosa da capital paulista rumo a padaria Fiães. Os passos, de ambos, eram decididos e firmes, urgentes, medrosos, confusos. Iam rápidos e de repente desaceleravam. Maria por um instante parou. Pensou em voltar, desistiu, voltou no prumo certo. Gomes diminuiu o compasso, refletiu ás avessas, e assegurou-se que o rio corre para o mar. Foram.
Viram-se frente a frente alguns passos antes da porta da padaria. O garoto entrou padaria adentro gritando: “Seu Portuga o casal tá vindo, deram um com a cara do outro”. Maria Amélia não conseguiu disfarçar o contentamento e sorriu, tão profundamente, que sentiu o corpo mole e desajeitado. Gomes apertou o passo e sorrindo- queria ver aquela mulher novamente- esticou as mãos que alcançaram as dela, num movimento delineado no espaço, formando um desenho único e mágico, que só o amor consegue emoldurar.